por Ana Estela de Souza Pinto FOLHA DE SÃO PAULO
Alice tem Alzheimer.
Tinha destaque numa universidade de ponta, família encaminhada, 50 anos com fôlego e saúde.
Uma proteína anormalmente produzida formou placas, porém, no seu
cérebro; átomos de fósforo em massa criaram emaranhados com outra
proteína, e ela passou a esquecer palavras, depois caminhos, pessoas.
Tarde demais, diz o médico ao casal atônito: quem tem muitos recursos
intelectuais cria estratégias para contornar os danos da doença. Quando
os sintomas incomodam, o mal já se tornou crítico.
O Brasil é a Alice dos recursos naturais. A crise é feia? "O país é
grande", respondem: temos água, terra, sol e gente em abundância. Que
gastamos em abundância, enquanto acumulamos placas de ineficiência.
Estamos no 61º lugar do ranking global de inovação, mas plantamos muita soja.
Perdemos de 120 países na atratividade a negócios, mas na entressafra da soja plantamos milho.
Somos os reis do boi e da galinha. Mas queimamos um terço dessas riquezas em nossas estradas e portos.
Tratamos pessoas como porcos e pés de cana –temos muitos braços. E
assim, metade dos alunos não consegue interpretar textos, estamos no
mais baixo nível de aplicação científica, 2 em cada 3 brasileiros de 15
anos não entendem percentuais, frações ou gráficos. O país é o penúltimo
de ranking global de patentes.
Sobram braços, faltam sinapses.
Por fim, escorados em nossas vantagens competitivas naturais, assistimos
a homens públicos (não apenas no Legislativo), como átomos
desgovernados de fósforo, formarem grumos perigosos no tecido do país.
Em entrevista à Folha nesta terça (folha.com/no1652517),
a presidente Dilma Rousseff prometeu reformas que chamou de "tipo
tipo": "Medidas estruturantes, que contribuem ao mesmo tempo para o
ajuste como para o médio e longo prazos".
Mas corra, Dilma, corra!
É tarde demais para Alice.
Para o Brasil pode ficar também.
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