Carlos Alberto Sardenberg o globo
Lista de Janot é muito mais do que ‘simples’ denúncia de imprensa. Os políticos ali citados serão alvos de uma investigação formal
Três ministros do governo japonês caíram nos últimos quatro meses,
envolvidos em denúncias de mau uso do dinheiro de campanha. A sequencia
chegou agora ao primeiro-ministro Shinzo Abe, acusado de receber doações
irregulares de duas companhias privadas.
Montante das doações: a espantosa cifra de R$ 14 mil. A ilegalidade
apontada: as empresas doadoras haviam recebido subsídios do governo.
Se essa regra existisse no Brasil, nenhuma das empresas envolvidas na
Lava-Jato poderia ter feito doações. Todas recebem financiamentos
subsidiados do BNDES.
A regra faz sentido. O subsídio — empréstimo a juros baixos ou redução
de impostos — é um favor concedido pelo governo. Logo, há motivos para
suspeitar de troca de favores. Então, a empresa ganha um subsídio e
pouco depois dá dinheiro para a campanha do primeiro-ministro?
Abe informou que recebeu os 14 mil reais mas alegou que não tinha como
saber que as doadoras recebiam subsídios públicos. Esse, de fato, é um
ponto em discussão nos meios políticos japoneses, de modo que o caso
permanece ainda sem solução.
Já um experiente político, Koya Nishikawa, renunciou em janeiro passado
ao cargo de ministro da Agricultura, também por um caso de possível
conflito de interesses.
Ele, Nishikawa, recebeu a fortuna de R$ 24 mil de uma companhia do setor
de açúcar. O possível conflito: como ministro da Agricultura, ele
participava da negociação de acordos internacionais de comércio, os
quais, de algum modo, regulariam a exportação e importação de açúcar.
É isso mesmo que o senhor e a senhora leram: havia uma possibilidade de
que Nishikawa, em negociações públicas e abertas, se considerasse meio
que forçado a defender interesses das companhias que lhe haviam doado
aquele dinheirão.
Renunciou, dizendo que, sim, havia recebido as doações, que, não, não
havia traído a confiança dos eleitores, mas que a possível suspeita
inviabilizava moral e politicamente sua permanência no governo. Reparem
de novo: a denúncia saiu na imprensa, não há processo legal, nenhuma
acusação nos tribunais.
Em outubro, duas ministras haviam renunciado na mesma situação. Jornais
veicularam acusações de mau uso de dinheiro de campanha, e isso bastou
para que as ministras renunciassem e pedissem perdão aos eleitores.
Examinadas aqui do Brasil, essas histórias parecem exageradas. Então o
sujeito renuncia porque há uma suspeita, uma desconfiança, um possível
mau passo numa situação controvertida? E por essa mixaria de dinheiro?
O que mostra o tamanho de nossa crise moral e política. Então uma
companhia ganha um contrato bilionário de uma estatal, recebe empréstimo
subsidiado para tocar a obra e em seguida faz doações milionárias para
os partidos que mandam na estatal — e isso não tem nada de mais?
Aliás, um partido mandar em uma superestatal também não tem nada de
mais? Dizem os cínicos: então, de que adiantaria ganhar a eleição?
Há mais: então uma construtora assina contrato com a estatal, sem
concorrência, recebe subsídio e em seguida paga uma consultoria
milionária para um influente dirigente do partido do governo — e tudo
bem?
Coincidência, diz o dirigente. Nem sabia que a tal construtora
trabalhava para o governo, não é mesmo? De qualquer modo, garante, tem
nota fiscal para os serviços prestados.
Consultoria séria é coisa séria. Tem reuniões entre o consultor e os
clientes, atas dessas reuniões, estudos e documentos encaminhados,
controle de horas de trabalho.
É bem diferente daquela consultoria em que o cara vai lá, dá uns palpites, umas dicas por telefone e embolsa um milhão.
Na mesma linha, os partidos dizem que as doações foram registradas na
Justiça Eleitoral. Se os doadores são clientes do governo, bem, o que se
há de fazer?
E desafiam os políticos acusados: provem que eu recebi o cheque; ou provem que o cheque foi propina ilegal.
A lista de Janot é muito mais do que uma “simples” denúncia de imprensa.
Os políticos ali citados estarão sendo alvos de uma investigação
formal, iniciada porque o procurador-geral da República e um juiz da
Suprema Corte entenderam haver indícios suficientes para isso.
Como pode um político nessas condições dirigir o Senado ou a Câmara dos
Deputados ou um órgão do governo ou simplesmente exercer um mandato?
A MP 669 até pode ser inconstitucional. Mas quem acredita que Renan
Calheiros a derrubou por esse motivo e não por causa de sua disputa com
Dilma e sua possível citação na lista de Janot?
No Japão, se o cara renuncia por causa de uma doação possivelmente
suspeita de R$ 24 mil, o que faria se apanhado numa Lava-Jato? Haraquiri
com humilhação?
Seria um exagerado derramamento de sangue, certamente. Mas, por aqui,
nem um pedidozinho de licença, nem um “foi mal, desculpa aí”?
extraídadarota2014





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