editorial de O Globo
Discurso
nacionalista do governo e da mídia estatal estimula a ação de grupos
paramilitares e gangues contra membros da oposição, tachados de
traidores
A morte de Boris Nemtsov, um dos líderes da oposição a Vladimir Putin,
quando se preparava para apresentar provas da intervenção militar russa
na Ucrânia, é o mais recente sinal de uma onda de violência preocupante
na Rússia, por seu caráter disseminado e estrutural. Estimulados pelo
discurso nacionalista e xenófobo do governo e da mídia estatal — no qual
o Ocidente emerge como alvo a ser abatido —, espalham-se pelo país os
mais variados grupos paramilitares, milícias e gangues que agem com
relativa autonomia, evocando a ação dos camisas pretas da Itália
fascista, da Waffen-SS nazista e congêneres.
A intolerância desses grupos se intensifica à proporção que Putin se
agarra com força à retórica nacionalista para tentar inverter a
impopularidade de sua gestão, abalada por uma grave crise econômica. O
presidente russo chegou mesmo a incorporar em seu discurso a mesma
semântica usada por radicais nacionalistas, como Andrei Kovalenko, líder
da juventude nacionalista russa, ou Alexander Zaldostanov, chefe do
grupo de motociclistas “Lobos da Noite”. A crise da Ucrânia e a anexação
da Crimeia são o ponto culminante dessa estratégia, cujo resultado é
uma sociedade civil ameaçada e amedrontada diante de um regime cada vez
mais truculento e intransigente à crítica.
Vladimir Ryzhkov, copresidente do partido de Nemtsov, o Partido
Republicano da Rússia, disse anteontem ao jornal “Financial Times” que a
mídia estatal, que domina os meios de comunicação no país, pinta os
críticos do governo como “traidores” e “inimigos” da Mãe Rússia,
estimulando a reação violenta contra a oposição. Segundo ele, nos tempos
da União Soviética, a brutalidade partia da cúpula do governo; era
monopólio do Estado. Hoje, porém, a situação mudou e, além da
truculência do alto, há uma violência vinda de baixo.
São grupos de nacionalistas, radicais, militares veteranos e até torcidas organizadas.
“Qualquer grupo pode usar de violência contra aqueles que eles veem como inimigos da Rússia”, disse Ryzhkov.
Na mesma noite em que Nemtsov foi assassinado, Andrei Balin, outro líder
oposicionista, foi espancado na cidade de Talyatti por um grupo, quando
voltava para casa. Além de ter sido violentamente agredido, Balin teve
seu laptop roubado. O ataque ocorreu à porta de sua residência,
sugerindo que o grupo estava à espreita do político, e que a ação foi
orquestrada.
Nemtsov, que vinha recebendo ameaças, foi vice-premier na gestão de
Boris Yeltsin e, de longe, a figura de maior proeminência vítima de
atentado na história recente da Rússia. Ele foi assassinado em Moscou
com quatro tiros a poucos passos do Kremlin na sexta-feira à noite,
quando caminhava com a namorada, a modelo ucraniana Anna Duritskaya.
Segundo especialistas em segurança, a forma como o atentado se
desenrolou mostra que a ação foi premeditada e realizada por
profissionais. Mas, seja lá quem tenha puxado o gatilho, todas as
evidências apontam o Kremlin como responsável direto ou indireto.
extraídadorota2014




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