HELIO FERNANDES - Via blog do autor -
Prometi que segunda-feira,
trataria da questão do impeachment, quem se beneficiaria, o que o país ganharia
com isso. Mas diante dessa manifestação que movimentou multidões, deixo o
impeachment para depois, existe tempo.
O que não pode esperar, é a
comparação e a análise isenta, baseada em números, do que houve nos dois dias
de povo nas ruas. Nem pode se dizer “povo nas ruas”, sexta-feira, e a
participação incalculável de ontem.
Usei a palavra incalculável,
para dizer que todos os números citados aqui, são todos da PM, especialista
nisso. Inclusive os 58 mil de Brasília, maior do total de sexta e no Brasil, e
esse 1 milhão em SP, superando todos o que já aconteceu por lá. E ultrapassado
até a multidão da Candelária no Rio, na grande defesa das “Diretas já”.
Manifestações
dos dois lados
SEXTA-FEIRA
Desastre total em matéria de
apoio. Catástrofe como organização, manifestação dirigida e paga, incapacidade
de levar o povo ás ruas. Irrefutável: a pauta era complicada e contraditória,
não entusiasma ninguém, muitos só esperando o dinheiro da alimentação e do
transporte. Recebiam bonés e camisas, nem vestiam.
Os que estavam nos caminhões
de som e “dirigiam” o espetáculo, falavam (mal e sem vibração) para ninguém. A
CUT não empolga mais ninguém, se consideraram satisfeitos, “por levarem milhões
ás ruas”, como disseram. Esses milhões, com boa vontade não passam de 40 mil,
somando os 24 estados e o Distrito federal. Em São Paulo, confessaram “12 mil’,
podem colocar 9 mil, avaliando generosamente. No Rio não ultrapassam a previsão
de mil participantes, ninguém contesta quando a contagem para em 700 ou 800, no
auge.
Lembro do comício das
”Diretas, já”, combatido pelos maiores jornais e órgãos de comunicação. 1
MILHÃO de pessoas, (eu estava no gigantesco palanque) começando na Candelária e
não terminando em lugar algum., a multidão não queria mesmo ir embora.
A pauta era incompreensível
e inexplicável. Contra a corrupção, contra o governo mas a favor de Dona Dilma,
contra ela “na questão da redução dos direitos dos trabalhadores”, contra
o impeachment, que ela e parte do PT, impensadamente colocaram nas manchetes.
Nos palanques desabitados, ninguém destacado. Perdão, na Bahia, discursava José
Sergio Gabrieli, presidente da Petrobras, no maior período da corrupção.
Que ele afirma, “não foi
sistemica”. Mas nomeou e protegeu Barusco, o homem de 97 milhões dólares.
Tendo que explicar o
momento, sem constrangimento, mostrando desprendimento, o porta-voz do Planalto
falou: “Agradecemos o apoio das ruas. Estamos satisfeitos que tenha acontecido
com tranquilidade. Como deve ser sempre. Todos têm direito a manifestações
democráticas”.
DOMINGO
A manifestação oficial e a
da reivindicação. De sexta e ontem, domingo, não dá para comparar mas também
não para deformar. A de sexta, desperdício. A de ontem, começa com a enorme
diferença de números desde a organização até a participação. Isso é uma
realidade visível, não dá para concluir com alguma irresponsabilidade ou
objetivos não democráticos.
A concentração foi
rigorosamente cívica, é a palavra. Quase todos de camisa verde e amarela (não
distribuída ou paga por ninguém), bandeiras brasileiras, donas de casa,
crianças, um espetáculo, que Dona Dilma, do Alvorada, assistia assombrada. 1 –
Contra a corrupção. 2 – Contra o desemprego resultante do escândalo. 3 – A
favor da Lava-jato. 4 - Contra o corte dos direitos dos trabalhadores.
5- Contra a inflação que
atinge os que ganham menos, e insatisfeitos com a alta dos preços da cesta
básica. 6 – Nenhuma palavra sobre o impeachment, embora se ouvisse algumas
vozes com “fora. Dilma” ou “fora, PT”. Mas isso era minimissimo.
Vou citar alguns números de
cidades, não apenas nas capitais, como na sexta. Todos os números divulgados
pela Policia Militar, que no Brasil, historicamente sempre faz essas
avaliações. Mesmo sem panelas o panelaço que tanto assustou a presidente, foi
amplamente superado.
Tudo começou bem cedo,
atingiu o auge, 5 ou 6 horas depois começava a dispersão. No rio, á 9 horas,
grande concentração, ás 11 horas mais de 25 mil pessoas. Belém, lá longe,
inesperados 21 mil, todos pela democracia e pela mudança na economia.
Belo Horizonte, 2 mil
manifestantes, foram cidades como Uberlândia, Varginha e outras. Pernambuco, 16
mil das mais entusiasmadas e tranquilas. Brasília, fora do comum, foi a grande
estrela do protesto. Às 11,30 entre 25 e 30 mil pessoas, concentrados no
gramado em frente ao Congresso. Mas segundo a própria PM, em outros pontos,
multidões caminhando, sem dar tempo para avaliação.
Brasília, impressionante e
politizada. Muitos gritavam, “nossa bandeira não é vermelha e sim verde e
amarela”. Ao meio dia e 40, a PM, voluntariamente retificava: “Agora são entre
40 a 50 mil os participantes”. A capital, sozinha superava a convocação e a
concentração oficial, nos 24 estados e essa mesma Brasília.
Em São Paulo, a concentração
foi marcada para 14 horas, mas as 13, presenças enormes. Já ultrapassando os 9
mil de sexta-feira. Pela circunstancia, informações visuais e em números
da PM, mais tarde. Mas os que já estavam, de camisas amarelas e sem bonés, e
satisfeitissimas.
Expressivo: em Ribeirão
Preto, (do corrupto Palocci) 40 mil pessoas. 3 ou 4 vezes mais do total da
capital, sexta-feira. Dona Dilma perguntava “pelo Nordeste”, depois englobava
“Norte/Nordeste’. Todos majoritariamente contra o governo. Importante; em todo
Brasil. Nenhuma presença, citação, bandeira ou sigla de qualquer partido ou
político. Ausência voluntaria e determinada, para não ‘contaminar” a
manifestação.
Manaus de 18 a 28 mil,
Fortaleza quase a mesma coisa, idem, idem, longe do fracasso de sexta-feira.
No Paraná, de 35 a 40 mil,
(logo depois corrigido para 60 mil) mas a própria PM, informa: “Não é um número
conclusivo, existem participações esparsas e paralelas”. Para São Paulo, o
governo acreditava que podia chegar a 50 mil ou 60 mil pessoas. Convocada para
2 horas, ás 3,15 o PM assombrava de tão gigantesca; “580 mil pessoas
participando”. A PM, que calcula sempre para baixo, informava: “Esse número
pode aumentar”. Mas já é o maior que a concentração das “Diretas já”, em 1984.
Mas ás 3,40 a PM vinha a
público: “Pelo menos 1 milhão de pessoas estão nas ruas de São Paulo, partindo
da Avenida Paulista, em frente ao MASP e a Fierj”. Esses números chamaram a
atenção do mundo, e já estavam sendo anunciados e comentados nos sites dos
maiores órgãos de comunicação. Ninguém falou em impeachment, não apareceu um
líder de qualquer partido. Mas a partir de hoje surgirão obrigatoriamente as
consequências.
Toda a tranquilidade,
transparência e manifestação pacifica, desagradavam a alguém. E ás 16 horas
surgiu um grupo de 15 a 20 pessoas, que se intitulavam “carecas do subúrbio”.
Com rojões que pretendiam jogar
sobre multidões. A Polícia estava atenta e ativa, foram presos, foi apenas um
detalhe.
Gente ligada ao governo
começou a usar redes, dizendo: “Esse 1 milhão é de eleitor do Aécio”.
Perfeitamente compreensível. Mas por que o PT de Dilma, que tiveram votação
maior do que a de Aécio, só colocaram nas ruas, 9 mil (ou 12 , com eles eles
dizem) na sexta?
O Rio podia ter ultrapassado
muitos estados, se a manifestação tivesse acontecido num dia de trabalho. No
domingo, o centro do Rio é completamente abandonado, o mesmo que acontece á
noite. Motivo: ao contrário de Nova Iorque, Paris, Berlim, Londres, aqui
ninguém mora no centro.
A cidade que já foi estado e
Distrito Federal, tem tradição de grandes movimentos, Em 1945, saindo de uma
prisão de 10 anos, Prestes fez um comício no Estádio do Vasco com capacidade
para 35 mil pessoas.
Mas segundo a Polícia
Militar estavam presentes 150 mil, que se espalharam pelo próprio gramado. E a
população era de um terço de hoje. E em 1984, o 1 milhão da Candelária.
Com o fim da manifestação,
aglomeração nos metrôs perto da Paulista, perfeitamente compreensível. Como
quase todos usaram esse tipo de transporte (carros não tinham como circular)
houve atropelo. 1 milhão de pessoas chegaram aos pouquinhos, queriam ou precisavam
ir embora em massa.
Dona Dilma havia convocado
uma reunião no Alvorada, “depois da manifestação”, ficou tão perplexa que
comunicou logo: “Hoje não falarei nada”. Nem surpreendente nem decisão
incorreta. Alem de todos os problemas que explodiram no segundo mandato mas
cuja origem é o primeiro, existem agora, interpretações sobre o que está
acontecendo. Isso levara muito tempo, ela terá que conjugar uma palavra, pela
qual não tem muito apreço: FAZER.
PS- Dona Dilma
derrotadíssima, no PT e nas ruas, O grande vencedor, pelo menos no partido,
contra Dona Dilma e seus conselheiros inúteis, foi o ex-Lula. Semana passada,
Lula esteve com a presidente: “Você tem que mudar o ministério, cuidar da
economia, da política e da administração”. Foi repelido agressivamente como é o
estilo dela. Tem que chama-lo e pedir desculpas.
PS2- Quando termino, Dona
Dilma tem no Alvorada,reunião inútil, e sem qualquer importância. Chegaram três
ministros. Miguel Rosseto, José Eduardo Cardoso e Aloizio Mercadante. Não sabem
o que farão, nem o que dirão. Se alguém falar, só poderá ser Miguel Rosseto.
Chegou agora e não está desmoralizado ou comprometido. Mas terão que inventar
alguma desnecessidade aceitável. Por eles, claro.
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