editorial da Folha de São Paulo
Novo ano, velhas tendências. O preço do petróleo desabou mais uma vez no
começo desta semana, atingindo o patamar de US$ 50 por barril. Sua
cotação já caiu 50% desde meados de 2014.
As ramificações desse fenômeno para os vários atores globais são amplas e
ainda não plenamente entendidas. Ninguém sabe se as cifras atuais
vieram para ficar, ou se a provável (mas ainda não observada) queda da
produção restaurará valores mais elevados em breve.
Supõe-se, por ora, que o excesso de oferta possa ter quebrado a
coordenação entre os principais países petrolíferos. Competindo entre
si, aceitam diminuir os preços cobrados para preservar mercado.
Não se descarta, ademais, que produtores tradicionais estejam buscando
inviabilizar projetos a princípio mais caros, como o xisto, nos EUA, ou o
pré-sal, no Brasil.
Seja como for, os impactos se fazem sentir. Verdade que, no caso
brasileiro, o petróleo mais barato até poderia ajudar a Petrobras, pois a
estatal compra combustível no exterior para vendê-lo (agora a um preço
mais alto) dentro do país.
A questão mais relevante, entretanto, diz respeito à viabilidade do
programa de investimentos do pré-sal, de US$ 220 bilhões até 2018. Não
por acaso as ações da Petrobras despencam na Bolsa.
Com uma dívida estratosférica, da ordem de R$ 300 bilhões, e capacidade
de geração de caixa enfraquecida, será preciso fazer uma escolha
decisiva. Preservar o plano de investimento é incompatível com a
manutenção da qualidade do crédito da estatal. Cortá-lo, por outro lado,
implicaria desistir do sonhado salto de produção a partir de 2016.
Enquanto isso, avolumam-se ações na Justiça, e a Operação Lava Jato
ainda não terminou. A cadeia de fornecedores está paralisada por falta
de pagamento, e a incapacidade de publicar as demonstrações financeiras
pode antecipar o vencimento de dívidas.
Os royalties do petróleo escasseiam, afetando o Orçamento de Estados. O
governo do Rio de Janeiro, por exemplo, calculando perdas de R$ 2,2
bilhões em 2015, anunciou significativos cortes de gastos.
A Petrobras representa 10% do investimento do país. O emaranhado de
relações financeiras com outras empresas e bancos traz alto potencial de
danos em cadeia, um risco que precisa ser enfrentado com agilidade e
competência –sob pena de afetar a própria nota de crédito do governo
brasileiro.
O Planalto, se é que se deu conta do tamanho do imbróglio, não parece
ter percebido o ritmo com que se agrava. Ainda flerta com paliativos e
mudanças cosméticas, mas já passou da hora de dar ao tema a prioridade
que merece.
fonte rota2014





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