A múmia, a crítica e a revolução
Demétrio Magnoli - O Estado de São Paulo
Segundo
assessores, Lula e Dilma Rousseff interpretaram a decisão de embalsamar
o cadáver de Hugo Chávez como, essencialmente, uma estratégia
eleitoral. Eles olham para outro lado, evitando confrontar a incômoda
realidade que, cedo ou tarde, assombrará o Brasil. A múmia em Caracas é o
indício inconfundível de uma regressão histórica da esquerda
latino-americana e, além disso, um sinal agourento de que os sucessores
do caudilho não pouparão a Venezuela do trauma da implantação de uma
"ditadura bolivariana".
A mumificação deliberada expressa
uma exaltação do desejo de permanência. No antigo Egito, o corpo do
morto devia ser embalsamado para que ele vivesse eternamente, a fim de
conhecer Osíris, a divindade da vida após a morte. Na política laica
contemporânea, a prática tem um sentido radicalmente diferente, pois não
se destina a promover um interesse do morto, mas a exercer influência
sobre os vivos. O morto deve ser eternizado a fim de aprisionar o
presente na jaula do passado, impedindo que a vida siga adiante.
"O corpo do presidente Chávez
será embalsamado como Lenin e Mao", anunciou Nicolás Maduro, o sucessor
designado. Nada indica que Vladimir Lenin desejasse ser convertido em
múmia e Mao Tsé-tung deixou assinada uma ordem para sua cremação. Os
dois líderes revolucionários consagraram-se ao empreendimento
intelectual de embalsamar o pensamento de Karl Marx, mas, justamente por
isso, rejeitavam a idéia de que, um dia, eles mesmos viessem a ser
circundados pelo halo do sagrado. Ao contrariar a vontade derradeira dos
líderes mortos, enquanto juravam fidelidade imorredoura a seus
ensinamentos, os sucessores inseguros almejavam congelar a vida
política, perenizando- se no poder.
Crítica da economia política é o
subtítulo de O capital. A palavra "crítica" permeia os textos de Marx. O
suposto inspirador dos líderes mumificados no Kremlin e na Praça da Paz
Celestial inscreve-se na linhagem do pensamento iluminista: a
"crítica", em Marx, é um movimento racional de recepção, interpretação e
superação da tradição intelectual. O estabelecimento de uma "Verdade
marxista" e sua calcificação como doutrina oficial representam a negação
do núcleo do pensamento "marxista". O mausoléu de Lenin, uma construção
em granito reminiscente da tumba do imperador Ciro II, e o de Mao, com
sua fachada em colunas neoclássicas, são símbolos apropriados de regimes
bárbaros, apoiados sobre a bengala da violência política sem freios e
devotados à supressão extensiva da crítica.
Marx não foi, contudo,
exclusivamente um pensador. Existe um outro Marx, o doutrinário
comunista, cujas idéias podem funcionar como fonte de legitimação da
barbárie totalitária. "Os filósofos se limitaram até hoje a interpretar o
mundo; cabe transformá-lo" - a última das Teses sobre Feuerbach
proclama, no fim das contas, que a revolução social é o critério
definitivo a respeito da verdade. Atrase célebre foi eternizada na
parede de mármore do saguão da Universidade Humboldt, em Berlim, pelos
dirigentes da antiga Alemanha Oriental. Eles estavam dizendo que o poder
estatal comunista era a culminância da filosofia, a estação final do
pensamento humano. A reverência absoluta diante da verdade oficial: eis a
exigência simbolizada na mumificação de Lenin, Mao e, agora, Chávez.
Nas democracias, por definição,
os estadistas são pessoas comuns, sujeitas ao acerto e ao erro, cuja
legitimidade deriva de uma vontade popular circunstancial. Na Venezuela,
o culto a Chávez atinge um paroxismo, expresso no novo qualificativo
que começou a circular durante o velório: no lugar do "Comandante",
surge o "Líder Supremo da Revolução Bolivariana". A Venezuela já não é
uma democracia, mas ainda não se fechou atrás da muralha de uma
ditadura. A iniciativa de embalsamar o líder morto constitui um passo
simbólico de largas proporções no rumo ditatorial. Por meio dela se
materializa na forma de uma múmia a declaração recorrente dos chefes
chavistas, que identificam a nação à sua própria corrente política.
Chávez não é Chávez, mas Simón Bolívar, ou seja, a nação inteira: isso é
o que, de fato, dizem os herdeiros mumificadores.
Em Cuba, o culto a Fidel Castro
realiza-se indiretamente, pelos cultos oficiais paralelos a José Marti e
Che Guevara. "Ser como o Che", ensina-se aos cubanos desde os bancos
escolares, significa curvar-se à verdade do Partido. Na Venezuela, como
sinal eloqüente de que não há uma novidade genuína no "socialismo do
século 21", a exigência de "ser como Chávez" já faz parte da linguagem
política utilizada pelos herdeiros do caudilho. Esse tipo de linguagem,
porém, não pode prosperar no ambiente da democracia, que é o da crítica e
da dissensão: a múmia de Chávez e as liberdades públicas são termos
alternativos na equação do futuro venezuelano.
A esquerda européia aprendeu o
valor da liberdade numa longa trajetória pontuada pela Revolução Russa,
pelo stalinismo, pelas invasões soviéticas da Hungria e da
Checoslováquia e pelas revoluções democráticas de 1989. A esquerda
latino-americana não viveu tais experiências definidoras, apenas ouviu
seus ecos distantes. De certo modo, a Revolução Cubana e o mito de Che
Guevara forneceram-lhe uma casamata ideológica, isolando-a da crise
histórica e moral que lançou uma luz esclarecedora sobre as múmias de
Lenin e Mao. Tomada no interior dessa casamata, a decisão de embalsamar o
corpo de Chávez entrelaça a sorte da esquerda autoritária na América
Latina à de um regime bolivariano em declínio, que só pode oferecer a
sombria perspectiva de uma ditadura terceiro-mundista.
Antes de significar um salto
ousado rumo ao futuro, revolução designava apenas o movimento cíclico de
eterno retorno dos astros. A mumificação dos "líderes supremos"
restaura o significado original da palavra, anulando as suas associações
com a crítica, a ruptura e a renovação.





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