editorial da Folha de São Paulo
Nas últimas semanas, a crise econômica mudou de patamar.
Já se consolidava, desde 2014, um cenário recessivo, com o esgotamento
da capacidade do governo de distribuir benesses e o colapso da confiança
de investidores, empresários e consumidores.
Tem outra natureza, porém, o que se observa a partir de julho: a rápida
deterioração de indicadores financeiros, normalmente associada a
turbulências agudas.
Estão nesse pacote a acelerada desvalorização do real, a elevação do
risco Brasil –que mede a chance de calote da dívida pública– e a
disparada dos juros internos de longo prazo, entre outros. Apesar de o
país ainda receber das agências de risco o selo de bom pagador, na
prática o mercado já considera essa classificação perdida.
Não se trata de mera especulação financeira. São evidências de que
aumenta a todo instante a insegurança quanto aos rumos nacionais. O
Brasil flerta com um passado que se acreditava superado, no qual as
recorrentes agitações financeiras contaminavam o ambiente de negócios e
ditavam o próprio andamento da economia.
A mudança nesses indicadores reflete temores crescentes de que a
inoperância do governo –e do sistema político como um todo– favoreça
cenários ainda mais danosos.
Se a escalada do dólar se prolongar, por exemplo, ficará mais difícil
reduzir a inflação em 2016. Nesse caso, o Banco Central pode se sentir
obrigado a manter as taxas de juros nas alturas. Assim, haverá
obstáculos adicionais ao crédito e agravamento da recessão.
Por isso, começam a aparecer projeções de queda de até 2,5% no PIB deste ano –e desaparecem os sinais de retomada em 2016.
O gatilho para esse novo cenário foi a revisão na meta de superavit
primário (o saldo de receitas e despesas antes do pagamento de juros).
Em vez de buscar economia de 1,1% do PIB, o governo passou a perseguir
um objetivo de 0,15% neste ano, com reduções em todas as expectativas
até 2018.
Desfez-se, de imediato, a frágil esperança de estabilizar a dívida no
mandato da presidente Dilma Rousseff (PT). Desnudou-se, além disso, o
desequilíbrio estrutural entre receitas e despesas.
É urgente a necessidade de conter os gastos e melhorar a qualidade do
arrecadação, a fim de carrear para os cofres públicos cerca de 4% do PIB
nos próximos anos. Sem que o governo consiga controlar sua própria base
aliada, o Congresso, lamentavelmente, age na direção oposta, criando
despesas.
Está em curso um mecanismo vicioso: a crise econômica alimenta a crise
política –e vice-versa. É necessário interromper esse ciclo; a incerteza
política não pode significar perda de controle na economia.
A missão é difícil, mas está longe de ser impossível. Pelo bem do país,
as principais lideranças nacionais precisam chegar a um consenso em
torno de uma agenda mínima, capaz de evitar turbulências e prejuízos
ainda maiores.
EXTRAÍDADEROTA2014BLOGSPOT





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