por Demétrio Magnoli Folha de São Paulo
Vão longe os tempos do braço erguido e do punho fechado. A novidade da
prisão de José Dirceu encontra-se na esfera das narrativas. Mesmo para o
PT, o "preso político" do mensalão reduziu-se a um político preso. A
lacônica nota partidária assinada por Rui Falcão sequer menciona seu
nome. Na declaração agourenta do ministro Ricardo Berzoini, um homem de
Lula, "cabe aos investigados tomarem as providências que julgarem
necessárias para se defenderem perante a Justiça".
O celebrado "guerreiro do povo brasileiro" não perdeu apenas os andrajos
de liberdade pendurados no mancebo da prisão domiciliar: foi condenado
por seu partido ao degredo político. É uma forma de adiar a reflexão
inevitável sobre as fontes ideológicas do apodrecimento ético do PT.
O PT traçou uma linha na areia separando a "corrupção pela causa",
virtuosa, da "corrupção pelo vil metal", pecaminosa. Corrupção virtuosa:
no mensalão, intelectuais petistas produziram doutos textos consagrados
à defesa da apropriação partidária de recursos públicos, e a relativa
pobreza de Genoino tornou-se símbolo e estandarte. Corrupção pecaminosa:
Dirceu, indicam as provas oferecidas pelos delatores, usou sua
influência no governo para constituir patrimônio pessoal. O guerreiro
caído cruzou a linha proibida. Seu degredo é uma desesperada tentativa
de perenizar a fronteira que se apaga sob ação do vento.
Não existe pecado do lado de cá do Equador. Se o país se divide entre
Povo e Elite, e se o Partido é a ferramenta da emancipação popular de um
jugo de 500 anos, então a "corrupção pela causa" não é corrupção, mas
um expediente legítimo na jornada libertadora. A fórmula inflexível,
refletida nos punhos cerrados do mensalão, tem suas próprias
implicações. É em nome dela que Dirceu experimenta a condenação mais
implacável. Numa ordem unida à qual só escapam cortesãos inúteis e vozes
periféricas de aluguel, o Partido imprime-lhe na fronte o estigma do
traidor. "Bode expiatório", disse seu advogado, numa referência aberta a
interpretação.
Dirceu é Dirceu, a segunda face do PT, não um Duque qualquer, um
Paulinho Land Rover ou um Vargas que só era André. Dobrando-se ao vil
metal, o guerreiro traidor remexe a areia, desmarca um limite, desfaz
uma certeza. Se até ele transitou de uma corrupção à outra, como
separá-las nitidamente, sanitizando a primeira e satanizando a segunda? O
degredo silencioso de Dirceu, que equivale a uma gritaria, destina-se a
abafar a pergunta incômoda. Os juízes do Partido temem menos a hipótese
improvável de uma delação premiada do guerreiro traidor que a exposição
pública das conexões entre a corrupção virtuosa e a corrupção
pecaminosa.
A linha divisória riscada pelo PT reflete uma lógica religiosa, típica
dos partidos autoritários. A corrupção virtuosa é aquela que serve à
finalidade transcendente de salvação do Povo; a pecaminosa, pelo
contrário, serve ao objetivo terreno de acumulação individual de bens
materiais. Na política democrática, contudo, a oposição relevante é
entre o público e o privado, não entre a salvação coletiva e o
enriquecimento pessoal. Segundo essa lógica, cujo critério são os meios,
o guerreiro não caiu sozinho.
Revisito as fotografias do líder estudantil preso, com centenas de
outros, no Congresso da UNE de Ibiúna, em 1968, e de sua partida para o
exílio, na base aérea do Galeão, com 12 outros, em 1969. Vistas da torre
de observação do presente, elas têm algo de profundamente melancólico:
os sinais de um fracasso coletivo. Mas, na história que se encerra, há
também a prova de um teorema: a "corrupção virtuosa" conduz,
inelutavelmente, à "corrupção pecaminosa". O PT não deveria renegar seu
guerreiro caído, nem defendê-lo, mas reavaliar a si mesmo no espelho de
sua trajetória. Para nunca mais cerrar o punho contra as instituições da
democracia.
extraídaderota2014blogspot





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