editorial do Estadão
O decreto da prisão de José Dirceu assinado pelo juiz Sergio Moro é
devastador. Farto conjunto de provas documentais e testemunhais,
coletadas também por meio do instituto da delação premiada, aponta
aquele que é, ainda hoje, considerado um dos mais importantes líderes do
PT como o principal artífice dos esquemas de corrupção dos governos
petistas. Está mais do que claro que o mensalão foi o escândalo
introdutório da pilhagem da Petrobrás, investigada pela Operação Lava
Jato. Esse eloquente conjunto probatório desfaz definitivamente a aura
de herói das causas populares, “guerreiro do povo brasileiro”, maquinada
pelo ex-presidente do PT, principal articulador político da campanha
presidencial de Lula em 2002 e poderoso ex-ministro-chefe da Casa Civil
da Presidência da República. De acordo com as evidências que
fundamentaram o decreto de sua prisão preventiva, depois de seu
afastamento do governo, da cassação de seu mandato de deputado federal
pela Câmara e de sua condenação pelo STF no julgamento da Ação Penal
470, José Dirceu dedicou-se a se tornar um homem rico à custa de
propinas milionárias – de que se beneficiaram familiares e amigos –
provenientes do esquema de corrupção na Petrobrás, regularmente pagas
por grandes empreiteiras a título de remuneração por “serviços de
consultoria”. Homem assim não pode ser herói de um povo honesto e
trabalhador.
Ao ser preso preventivamente por tempo indeterminado, José Dirceu já
cumpria, em regime domiciliar – depois de ter passado quase um ano
recolhido ao presídio da Papuda –, pena por corrupção ativa. Já era um
criminoso apenado. No que diz respeito às infrações que lhe são agora
imputadas no âmbito da Lava Jato, permanecerá na condição de investigado
enquanto o juiz Sergio Moro não acolher a denúncia do Ministério
Público e transformá-lo em réu da ação penal.
Por uma questão de rigor ético e processual, portanto, será necessário
aguardar o veredicto da Justiça para que José Dirceu se torne, mais uma
vez, ou não, culpado de corrupção. Mas a decretação de sua prisão
preventiva produz um efeito essencialmente político, simbólico, já que a
percepção pública se forma independentemente do curso
jurídico-processual da ação. Por exemplo, a condenação de José Dirceu
pelo STF não foi suficiente, junto a seus admiradores fanáticos, para
transformar o herói em vilão. Hoje, num contexto em que o forte clamor
popular contra a corrupção coloca políticos na berlinda, as evidências
apontadas pela Lava Jato contra José Dirceu são certamente mais do que
suficientes para condená-lo à incontrolável execração pública, mesmo na
hipótese improvável de que passe ileso pela barra dos tribunais.
Pesa em tudo isso o comportamento desabusado de José Dirceu, na fase
final do processo do mensalão, quando recorreu à subscrição pública para
levantar recursos para pagamento da multa a que fora condenado pelo
STF. Fez-se de vítima desvalida e poupou-se, à custa da boa-fé de seus
apoiadores, de mexer nos milhões que já àquela altura amealhara com seus
muitíssimo bem remunerados serviços de “consultoria”.
É difícil de acreditar, portanto, que fora do círculo mais íntimo de
familiares e de amigos remanesça um contingente significativo de
apoiadores de José Dirceu, acusado de ser um dos principais
articuladores do esquema de corrupção urdido para dar base de
sustentação financeira ao projeto de poder do PT – e, de quebra,
enriquecer servidores públicos, políticos, empresários e profissionais
dos crimes financeiros.
O sepultamento do mito do “guerreiro do povo brasileiro” agrava e
acelera o processo de esvaziamento político do PT, cuja direção, ao
tomar conhecimento da prisão de seu ex-presidente, preferiu olhar para o
outro lado e divulgar uma nota na qual repete que todas as doações ao
partido estão legalmente registradas. Rui Falcão, por dever de ofício,
continua fingindo acreditar que os brasileiros não entendem a diferença
entre origem ilegal e registro legal de doações a partidos políticos.
No âmbito do governo – como se pode imaginar, apesar de não surpreender
–, a prisão de Dirceu foi recebida com indisfarçável preocupação. Até
porque essa foi apenas a primeira de uma série de más notícias que
agosto promete para Dilma Rousseff.
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