SEBASTIÃO NERY -
Nos
dias seguintes, na Itália e na Inglaterra, apareceram assassinados
vários outros ligados a Calvi. Não é só em Santo André que se limpa a
área. No meio da confusão estava Ortolani, um dos quatro “Cavaleiros do
Apocalipse”. Quando, a partir de 1990, a “Operação Mãos Limpas” chegou
perto deles, o conde, olhando Roma lá de cima do Gianiccolo, me dizia:
– Isso não vai acabar bem.
O
ministério Publico e a Justiça enfrentaram a aliança, que vinha desde
1945, no fim da guerra, entre a Democracia Cristã e a Máfia italiana.
Houve centenas de prisões, suicídios. Nunca antes a máfia tinha sido tão
encurralada. Responderam com bombas detonando carros de procuradores e
juizes. Os grandes partidos aliados (Democrata Cristão, Socialista,
Liberal) explodiram. O Partido Comunista, conivente, desintegrou-se. E
meu amigo conde, condenado a 19 anos, morreu em 2002, aos 90 anos.
MÃOS LIMPAS
A
“Operação Mãos Limpas” não teria havido se um punhado de bravos jovens
valentes e alucinados, das Brigadas Vermelhas e dos Proletários Armados
pelo Comunismo (PAC), não tivesse enfrentado o Estado mafioso. O
governo, desmoralizado, usava a Máfia para elimina-los. Eles
reagiam,houve mortos de lado a lado e prisões dos lideres intelectuais,
como o filósofo De Negri (asilado na França) e o romancista Cesare
Battisti, asilado no Brasil. Eu estava lá, era Adido Cultural, vi tudo,
escrevi.
Foram
eles, os jovens rebeldes das décadas de 70 a 90, que começaram a salvar
a Itália. Se não se levantassem de armas na mão, a aliança Democracia
Cristã, Partido Socialista, Liberais e Máfia estaria lá até hoje.
Berlusconi foi o feto podre que restou, mas logo foi expelido.
O
juiz Falcone (assassinado) e o procurador Pietro (hoje no Senado)
comandaram a “Operação Mãos Limpas”. Foram o juiz Sergio Moro de lá.
O CONDE
O
carrão preto, motorista de libré, parava na porta da embaixada do
Brasil em Roma, na Piazza Navona, em 90 e 91. Descia um senhor baixo, 80
anos, terno escuro, colete cinza, camisa branca e gravata. Um dos
homens mais poderosos da Itália, conde do Papa, banqueiro de Deus, ia
buscar-me para almoçar, a mim pobre marquês, adido cultural.
Íamos
a discretos e charmosos restaurantes de Roma, com os melhores vinhos da
Itália. Às vezes o almoço foi no palacete dele, na Vila Archimede, no
alto do Gianicolo, ou, em um domingo de sol, em sua casa na serra, em
Grottaferrata, a poucos quilômetros de Roma. Simpático, vivido, o conde
Umberto Ortolani era uma figura “ambígua, misteriosa” (como dizia o
jornal “La Republica”). Mal falava, só perguntava.
Dele
eu sabia que era conde da Santa Sé,“gentiluomo di sua Santitá”,
banqueiro do Vaticano, sócio-diretor do jornal “Corriere de la Sera”. Eu
o havia conhecido num vernissage no Masp, em São Paulo, em 1984,
apresentado pelo jornalista José Nêumanne, do “Estado de S. Paulo”.
A MAFIA
O
que ele queria de mim? Queria que eu convencesse o Itamaraty a lhe
entregar um novo passaporte, pois tinha cidadania brasileira dada pela
ditadura militar a pedido dos Mesquita do “Estado de S. Paulo” e os dois
passaportes que tinha, o italiano e o brasileiro, o governo italiano
lhe tomara ao descer em Roma, depois de oito anos asilado no Brasil.
Levou-me a seu escritório na Via Condotti 9, em cima da “Bulgari”:
– Desta sala saíram sete primeiros-ministros : Andreotti, Craxi, etc.
O
conde era a historia exemplar do satânico poder dos banqueiros, mesmo
quando banqueiro de Deus, vice-presidente do banco Ambrosiano, daquele
cardeal Marcinkus até hoje foragido nos Estados Unidos. Há um livro
imperdível : “Poteri Forti” (“Fortes Poderes, o Escândalo do Banco
Ambrosiano”), do jornalista italiano Ferruccio Pinotti, abrindo as
entranhas do poder de corrupção do sistema financeiro com governos,
partidos.
No “Globo”, o lúcido Merval Pereira denuncia a “lógica da gangue”:
–
“Os advogados do empresário Julio Camargo, Figueiredo Basto e Adriano
Breta, dizem que Eduardo Cunha está agindo com a lógica da gangue.
Acusam Cunha de agir “astuciosamente” para desacreditar os depoimentos
do delator (Camargo). Para eles está em vigor a moral da gangue, que
acredita triunfar pela vingança, intimidação e corrupção”.
O “BAGUNÇA”
Em
Caxias, no Estado Rio, há um restaurante chamado “Bagunça”. É do
deputado do PMDB Celso Pansera, que persegue a brava advogada Beatriz
Catta Preta na CPI da Petrobrás: Capas Pretas contra a Catta Preta.
extraídadatribunadaimprensaonline





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