Jornalista Andrade Junior

quarta-feira, 11 de março de 2015

‘Que ano é hoje?’ – Uma crônica sobre o Brasil

SILVIO NAVARRO


São Paulo, 15 de março de 2015, um domingo de sol. Mas poderia ser 1992.
Seu João acordou de um coma que durava mais de 23 anos e desafiava a ciência moderna. Sem saber em que ano despertava, perguntou ao médico: 
- Doutor, o que está acontecendo lá fora?
O médico respondeu prontamente, até porque estava indignado naquela manhã com a notícia de que o governo anunciará a convocação de mais médicos cubanos, algo que, para ele, ecoava inconcebível num país com tantas universidades e profissionais formados.

- O país se prepara para viver o impeachment do presidente! – respondeu.
João quer saber das finanças e pergunta o valor da moeda americana.
- A economia vai mal. O dólar disparou de novo! Os ministros são horríveis, os planos econômicos não estão dando certo. Parece que o governo já não tem mais o apoio do Congresso. E o presidente parece estar mais preocupado com a Argentina, que é governada por um maluco.
Seu João franze a testa.
- É… Esse Collor viu…
Ao que o doutor rebate:
- Pior é que tá lá o canalha ainda! Enroscado até o pescoço com corrupção!
Absorto, descobre que o médico tem um aparelho de telefonia celular (telefonia celular, pergunta?) que parecia mais moderno que o cartoon da família Jatsons ou a série Star Trek. Descobre o touch screen e a internet, mas avalia que aquilo só pode ser coisa do avanço da tecnologia hospitalar. As informações saltam na tela: Madonna vai lançar um disco polêmico, houve um arrastão em Ipanema, a cerimônia do Oscar teve menções ao preconceito racial, a Xuxa é notícia e o Humberto Gessinger, líder dos Engenheiros do Hawaii, lançava um novo show. Ele pede para ligar a TV, que, por culpa da senhora que estava ao lado, variava entre o Canal Viva e a TV Globo: naquela tarde, a Globo transmitia um capítulo de Rei do Gado, com Antonio Fagundes no auge (seu João fica confuso e pergunta se o ator teria emendado o papel do fazendeiro Bruno Mezenga no anterior, como Felipe Barreto, em O Dono do Mundo).
- Amigo, você pode mudar de canal na TV?
Da Globo, o canal seguinte é a Rede Record. Um apresentador que ele não reconhece anuncia uma reprise do maior sucesso naquela semana: o Programa Gugu Liberato. Seu João reclama:
- Daqui a pouco ele vai dançar o ‘Pintinho Amarelinho’! (A profecia se cumpre minutos depois). Ele não reconhece Suzane Richthofen, mas acha que aquela história absurda seria notícia por décadas.
Entediado, reclama:
- Pode mudar de canal mais uma vez, por favor?
Na TV, as pegadinhas de Ivo Holanda e a risada do apresentador Silvio Santos. Seu João brinca:
- Ele pintou o cabelo de novo… Futebol, tem? Fale da seleção!
A que o médico responde:
- Não acompanho desde o vexame na Copa.
Seu João observa a enfermeira que, enquanto checa o soro comenta com a colega que exibe garrafinhas de mini-Coca-Colas, nova promoção da empresa.
Ele coça a cabeça e pergunta ao médico:
- Escuta, o que vai acontecer com o Brasil, hein?
O médico enche o peito e responde:
- O PSDB ainda vai ganhar a eleição. Mas o Lula está sempre aí, né?
Seu João tinha a resposta na ponta da língua:
- Amigo, o PT ainda vai quebrar o Brasil, pode anotar e me cobre no futuro.
Seu João teve alta em 15 de março de 2015, desafiando a ciência moderna, mas morreu de desgosto semanas depois ao descobrir que a família aplicara todo o saldo do seu FGTS em ações da Petrobras.





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