por Demétrio Magnoli Folha de São Paulo
"Nós dois lemos a Bíblia dia e noite, mas tu lês negro onde eu leio
branco". Joaquim Levy deveria tomar emprestada a frase de William Blake
para sintetizar suas relações com o antecessor, Guido Mantega. Os
evangelhos da Igreja da Expansão Fiscal, de Mantega, dizem que o
desenvolvimento nasce do endividamento público. Já os evangelhos da
Igreja da Ortodoxia Fiscal, de Levy, asseguram que, pelo contrário, o
desenvolvimento emana do equilíbrio das contas públicas. Dilma Rousseff,
a exterminadora do futuro, trocou um fundamentalismo por outro,
complementar.
Desenvolvimento é aumento da produtividade econômica sistêmica, ou seja,
da capacidade social de produzir riqueza. A política fiscal não passa
de um instrumento, entre outros, para sustentar (ou sabotar) o
incremento da produtividade. Os arautos da Igreja da Expansão Fiscal
entregam-se à propaganda enganosa quando sustentam que o governo adotou a
política econômica dos candidatos da oposição nas eleições
presidenciais. Os conselheiros econômicos de Aécio e de Marina propunham
uma série de reformas destinadas a reativar o crescimento pela ponta
dos investimentos. Um ajuste fiscal escalonado ao longo do tempo
funcionaria apenas como amparo da nova política econômica.
Nada a ver com a recessão inútil engendrada pelo governo.
No mundo invertido do lulopetismo, o governo fez política fiscal
expansionista na etapa ascendente do ciclo (2010) e, como consequência,
faz política fiscal contracionista na etapa cadente do ciclo (2015). O
ajuste fiscal, na hora errada, tornou-se compulsório –mas, mesmo assim,
não seria preciso praticar a cirurgia sem assepsia. Dilma gosta da
palavra "rudimentar", empregada há pouco por Levy. É o melhor
qualificativo para as políticas econômicas simétricas de seus dois
mandatos.
Levy age como um secretário do Tesouro, não um ministro da Fazenda. Sob a
sua batuta, cortes de despesas e escorchantes aumentos de tributos e
preços administrados converteram-se em finalidades de política
econômica. A recessão provocada por sua insensata ofensiva fiscalista
reduzirá as receitas e, no fim, o "sucesso" do ajuste derivará
essencialmente da alta da inflação. A receita da Igreja da Ortodoxia
Fiscal não serve ao país, mas amolda-se ao projeto eleitoral de Lula,
que prevê a reativação da farra fiscal "manteguiana" nos anos
derradeiros de Dilma 2.
As vacas sagradas do lulopetismo não saíram do pasto. O governo suga o
sangue dos outros, mas não sinaliza um corte radical nos cargos de
nomeação política. A Petrobras venderá patrimônio na bacia das almas,
mas aferra-se ao inviável regime de partilha. Enquanto a Fazenda fecha a
torneira do déficit público, o BNDES prepara-se para reabrir a torneira
da dívida pública, salvando a Sete Brasil e as empreiteiras do
"petrolão". O sumo pontífice da austeridade fiscal é um Gilberto Kassab
das finanças: o pistoleiro liberal contratado pelo estatismo populista.
O motor da economia são as expectativas. Um ajuste fiscal inscrito numa
política de reformas de longo prazo poderia reconstruir a confiança e
estimular investimentos. O ajuste pró-cíclico de Levy, uma bandeira
cravada na superfície lunar do "dilmismo", só aprofundará a recessão
inevitável. A maioria da bancada parlamentar petista diz que votará
contra os pacotes do ajuste. O Congresso deveria, por bons motivos,
fazer o que, por maus motivos, os petistas simulam que farão.
"Se os economistas conseguirem se fazer vistos como pessoas humildes e
competentes, no nível dos dentistas, isso seria esplêndido!", escreveu
John Maynard Keynes em 1930. Ele queria dizer que a política econômica
não existe para confirmar, ou desmentir, os dogmas dos economistas, mas
para afastar-nos da miséria, da carência e do desespero. Mantega e Levy,
sacerdotes de igrejas vizinhas, não tratam cáries: arrancam dentes.
EXTRAÍDADOROTA2014





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