por Mary Zaidan o globo
Matar é matar. Homem, mulher, gay, bi, transexual. É hediondo por natureza. Não se pode fazer diferença entre matar um ou outro por gênero
Ainda pendente da sanção de Dilma Rousseff, que, possivelmente a fará
com pompa e circunstância para comemorar o Dia Internacional da Mulher, a
lei que torna hediondo o feminicídio foi aprovada. Isso quer dizer:
penas mais duras para quem matar mulher pelo fato de ela ser mulher.
Mais do que uma bobagem populista para agradar ao público feminino perto
do dia 8 de março, a proposta é discriminatória, ilegal e, claro,
inconstitucional.
Matar é matar. Homem, mulher, gay, bi, transexual. É hediondo por natureza.
Não se pode fazer diferença entre matar um ou outro por gênero. É uma
violação grosseira ao Artigo 5º da Constituição, aquele que assegura que
“todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, e
todos os seus incisos. Uma afronta tão absurda que deveria – essa sim -
ser considerada hedionda.
Além de ferir a Constituição, a lei para fazer bonito para as mulheres
atenta contra a lógica. Até leigos sabem que punições maiores não inibem
o crime, muito menos os homicídios. Há vários estudos que comprovam
isso, incluindo os sobre a pena capital, que corroboraram para a redução
desse tipo de punição nos Estados Unidos e para que vários países do
mundo, a exemplo da Inglaterra e França, extirpassem a pena de morte de
suas leis.
Pior: em um país em que os homicídios crescem assustadoramente, a lei do
feminicídio é, para dizer o mínimo, tergiversar sobre a violência.
Os números são de arrepiar.
O Brasil responde por 13 em cada 100 assassinatos no mundo. De acordo
com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o país é campeão em números
absolutos de homicídios. Nada menos de 64 mil em 2012, superando a
populosíssima Índia, segunda colocada, com 52 mil.
Ainda que as mulheres sejam vítimas – e a lei Maria da Penha é
importante para estimular a denúncia sobre a violência contra a mulher
–, são os jovens do sexo masculino que engrossam as estatísticas dos
homicídios: 74 por 100 mil quando se fala de garotos de 21 anos. Um
escândalo.
Ninguém pensou em qualificar esses assassinatos como hediondos ou tipificá-los na categoria de jovencídio.
O problema é que aqui se esbarra em temas mais profundos que tanto o
Senado quanto a Câmara insistem em adiar: a maioridade penal e o poder
de polícia. Nunca se matou tanto jovem, mas também nunca tanto jovem
matou tanta gente. Nunca se prendeu tanto e nunca tão pouco bandido
continuou preso.
Ao contrário da quase unanimidade do feminicídio, que em nada mudará o
aterrador quadro de violência do país, são temas complexos, populares
por um lado, impopulares por outro. Ficam, então, para as calendas.
Sem coragem para pelo menos tentar soluções para reduzir o número
indecente de assassinatos, o Brasil cria seus monstrengos. A partir da
sanção da lei, mulheres que matam homens terão penas menores do que os
homens que matam mulheres.
Enquanto isso, homicídios de todos os gêneros se multiplicam em ritmo endêmico.
extraídadarota2014





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