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08:03
ANDRADEJRJOR
VINICIUS CARRASCO, ARMINIO FRAGA E JOÃO MANOEL P. DE MELLO O GLOBO

Nos últimos anos, o
governo abriu como nunca as torneiras do Tesouro, aportando vultosos
recursos ao BNDES, através do qual concedeu empréstimos subsidiados.
Qual o resultado dessa política? A resposta curta é: não sabemos, pois
não estão disponíveis dados necessários para uma análise rigorosa dos
vários programas e empréstimos individuais do banco.
Políticas
públicas são financiadas por impostos e é obrigação do governo prestar
contas de seu uso aos cidadãos que os pagam. Não menos importante, os
recursos são escassos e as necessidades da população virtualmente
ilimitadas; os recursos escassos deveriam, então, ser aplicados às
políticas que gerem maior benefício à sociedade. Por essas razões, toda e
qualquer política pública deveria ser criteriosamente avaliada, com
cômputos e apresentação à sociedade de seus custos e benefícios.
Do
lado dos custos, a discussão se dá de maneira um tanto quanto confusa. A
atividade principal de um banco é conceder empréstimos. O risco desses
empréstimos (e, portanto, seu custo econômico) é incorrido por quem
financia o banco. O custo de financiamento de um banco está relacionado
ao risco de seu portfólio de ativos, ou seja: os recursos que financiam a
atividade do banco devem ser remunerados de acordo com o risco que
impõe aos financiadores.
Um exemplo: parte substancial do
financiamento do BNDES vem de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador
(FAT), para os quais não há qualquer compromisso de repagamento de seu
principal pelo banco. Portanto, o FAT é, de facto, acionista do BNDES e
deveria ser remunerado de acordo com os riscos com os quais um acionista
se depara. A despeito disso, recebe como remuneração a Taxa de Juros de
Longo Prazo (TJLP). De forma análoga, o governo é acionista do BNDES e
deveria ser remunerado como tal. Em particular, ao contrário do que o
debate público sugere, o subsídio implícito em qualquer empréstimo feito
pelo BNDES é a diferença entre a taxa do empréstimo e o custo econômico
de financiamento do banco: fazer com que a TJLP se iguale à Selic
reduziria, mas não eliminaria o subsídio.
Além do custo de
financiamento do banco, há um outro custo que deve ser levado em
consideração. O FAT, por exemplo, é financiado por impostos pagos pelas
empresas e distorcem suas decisões do quanto investir em capital e
empregar trabalhadores e, portanto, impõe um custo à sociedade que deve
ser levado em consideração para se avaliar o custo do BNDES.
Se
do lado dos custos o problema nos parece ser conceitual, do lado dos
benefícios o problema é que não há informação suficiente para que a
sociedade os avalie. A principal justificativa para a atuação de um
banco de desenvolvimento é a existência de projetos cujos benefícios
sociais sejam maiores que os benefícios privados. Numa situação dessas,
os agentes privados não conseguirão se apropriar de todos os benefícios
gerados. Assim, ausentes a atuação do banco e alguma forma de subsídio,
esses projetos não seriam levados a cabo, com consequências negativas
para a sociedade. Isso ocorre, por exemplo, em projetos que geram o que
os economistas chamam de externalidades positivas, isto é, quando um
projeto gera ganhos sociais para além daqueles que se beneficiam
diretamente dele.

A
sociedade tem o direito de julgar se os benefícios da concessão de
empréstimos subsidiados compensam os custos. Afinal, não faltam outros
problemas que podem ser mitigados com esses recursos, como as filas do
SUS ou a falta de vagas em creche, para citar apenas duas de uma longa
lista de carências. Para fazer a avaliação, é indispensável que a
sociedade tenha acesso às informações. Por exemplo, sendo o empréstimo
subsidiado, quais são a taxa efetiva, o prazo e o indexador? Como isso
se compara com os juros o governo paga? Para empresas abertas, como o
financiamento do BNDES se compara à taxa média de financiamento da
empresa no mercado? O indexador é diferente? E como se compara às
debêntures que a empresa possa ter? Na ausência dessa informação — o que
ocorreria para empresas fechadas — como os termos se comparam com
termos que empresas abertas comparáveis enfrentam?
Até hoje os
dados sobre cada empréstimo do BNDES não estão disponíveis, sob a
justificativa de que seria uma violação do sigilo bancário. Uma
possibilidade seria fazer com que cada empresa que receba empréstimos a
taxas subsidiadas (que correspondem a um custo social) abra mão de
confidencialidade de algumas informações relacionadas ao empréstimo,
como contrapartida e sob condições a serem determinadas. É possível que,
em circunstâncias muito especiais, seja socialmente desejável fomentar
algumas empresas ou setores através de empréstimos subsidiados. Mas esse
é tema para outro artigo. Nosso ponto aqui é mais básico: precisamos,
antes de mais nada, mensurar corretamente o retorno social dos
empréstimos subsidiados do BNDES. É hora de abrir a caixa preta.
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