Luiz Carlos Mendonça de Barros
O aprendizado da economia não é feito apenas pelo conhecimento de
modelos econométricos sofisticados. É necessário também incorporar
experiências passadas, inclusive em sociedades distantes da que vive o
analista. É o correto equilíbrio entre o racional/ideológico e esses
ensinamentos que nos traz a história, que gera a sabedoria.
O Brasil vive desde 2012 um desses momentos em que a experiência de
ajustes cíclicos de outras economias não poderia ser esquecida.
Infelizmente a presidenta Dilma tentou um caminho inviável, já
percorrido com resultados negativos por outros governos de esquerda, e o
Brasil colhe agora os frutos amargos de um ajuste tardio de sua
economia.
Uma das lições importantes, deixada de lado pelo governo Dilma, foi a de
que existe uma taxa de desemprego a partir da qual as pressões no
mercado de trabalho aceleram a inflação. É a chamada Nairu, sigla em
inglês para Non-Accelerating Inflation Rate of Unemployment. Em outras
palavras, taxas de desemprego muito baixas criam restrições importantes
na condução da política econômica e precisam, portanto, ser levadas em
conta pelos seus gestores.
No fim da era Lula –e no início do primeiro mandato de Dilma–, a
restrição da Nairu, bem como outros sinais da exaustão do modelo
econômico na era do PT, não foi levada a sério e se tentou perpetuar a
situação de pleno emprego via uma nova rodada de estímulos fiscais e
monetários.
O resultado foi a perda de controle da inflação e da âncora
macroeconômica, marcos que serviram como uma sólida âncora de
credibilidade nos anos Lula. Foi questão de tempo para que as
expectativas dos agentes econômicos privados entrassem em colapso,
levando a economia a perder dinamismo rapidamente.
As eleições de outubro passado deram à presidenta uma segunda chance de
mudar sua política econômica e tentar recuperar o tempo perdido. Mas o
ajuste tardio terá custos e dificuldades muito maiores, pois a economia
já está em recessão, e o ambiente político, mais difícil para que sejam
aprovadas as medidas econômicas necessárias.
Outro fator que dificulta o ajuste em curso é a falta de confiança dos
agentes econômicos na perenidade do novo modelo. Aliás, na minha visão,
esse é o grande teste para o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, nos
próximos meses. O sucesso de sua política depende da mudança nas
expectativas do setor privado em relação à sua capacidade de obter do
Palácio do Planalto –e do Congresso– um apoio irrestrito para o ajuste
fiscal e o controle do crédito nos bancos públicos programado.
Um bom indicador para que acompanhemos essa luta pela credibilidade será
o comportamento da taxa de câmbio e dos juros nos mercados futuros. No
momento de grande tensão e insegurança que vivemos, a cotação do dólar
passa a ser vista como um sinal de instabilidade, inclusive
institucional, e de riscos bem mais sérios à frente.
O fato de a desvalorização do real nos últimos meses ter sido superior à
de outras moedas emergentes –mesmo sendo a taxa de juros reais no
Brasil muito maior– é um sinal de que a falta de confiança é ainda alta.
Somente a aprovação pelo Congresso das MPs editadas recentemente pelo governo pode reverter essa situação.
Outro desafio a ser enfrentado pelo ministro será a dosagem das medidas
de ajuste já tomadas –e as que ainda serão tomadas– pois a economia já
mergulhou em um processo de contração forte –e autônomo– da demanda.
Uma dose exagerada do remédio pode criar uma recessão muito maior do que
a necessária para ajustar inflação e a conta-corrente, criando um
looping fiscal para baixo de consequências graves.
Se isso ocorrer, a deteriorização do ambiente político e do apoio ao
governo na opinião pública acabará por criar condições muito frágeis de
governabilidade, inviabilizando o programa do ministro.
Termino esta minha coluna lembrando outro ensinamento que a história
traz ao analista e que pode ser encontrado na conhecida fábula da
cigarra e da formiga. É preciso se preparar com antecedência para o
inverno, pois, quando ele chegar, as dificuldades serão muito maiores do
que as que prevaleceram nos festivos e alegres dias do verão.
EXTRAÍDADEROTA2014





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