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É praticamente inevitável que, num meio social cada vez mais burro e tacanho, cada vez mais materialista, imediatista e dinheirista, um trabalho como aquele que desenvolvo nos meus cursos e conferências desperte todo um florescimento de suspeitas e fantasias paranóicas. Se neste país nem mesmo as pessoas de classe média e alta têm alguma idéia do que seja um filósofo no sentido vulgar, profissional e burocrático do termo, como poderiam entender alguém que busca, na linha de um Louis Lavelle, de um Dietrich von Hildebrand ou de um Gabriel Marcel (autores dos quais nunca se ouve falar na úichpi ou na púqui), restaurar a síntese clássica de cultura, pensamento e vida, a união indissolúvel do saber e do ser, a filosofia como disciplina não só da inteligência, mas da alma?
Incapazes
de encontrar para essa atividade uma classificação tranqüilizante na
nomenclatura das profissões usuais, muitos são os que conjeturam, para
explicá-la, toda sorte de hipóteses extravagantes. O temor caipira
mescla-se aí ao fenômeno mais geral e disseminado da adolescência
prolongada, gerando as reações mais incríveis e estratosféricas. Sabendo
que vez por outra vêm estudantes à minha casa, para aí impregnar-se um
pouco de um estilo de vida que dê substância existencial ao que
aprenderam nas minhas aulas, papais e mamães, preocupados com a
segurança e bem-estar de seus bebês de vinte, trinta ou quarenta anos,
perguntam angustiadamente se não se trata de uma seita, de um movimento
subversivo ou mesmo de alguma rede internacional de tráfico de escravas
brancas, e advertem as criancinhas para que se mantenham a uma prudente
distância de coisas tão horríveis.
Aqueles
que leram dois ou três livrinhos, o suficiente, no Brasil, para fazer
de um retardado mental um jornalista, um professor, um “formador de
opinião”, dão expressão pública a essas fantasias domésticas,
fornecendo, para explicar as minhas atividades malignas, teorias que,
decerto, dizem mais a respeito deles próprios que de qualquer coisa que
tenha a ver com a minha pessoa de carne e osso.
Conforme
o seu grupo de referência – pois no Brasil não há pensamento
individual, só o bom e velho “imbecil coletivo” --, arrumam suas
conjeturações e suspeitas numa línguagem que simula a
racionalidade-padrão do seu meio social, às vezes chegando até a
acreditar que com isso disseram algo de tremendamente cientifico.
A
hipótese da “seita”, com direito a escravização mental e genuflexões
ante o guru, foi posta em circulação pelo sr. Rodrigo Constantino, o
qual não precisou, para isso, nem freqüentar as minhas aulas, nem
coletar depoimentos de vítimas traumatizadas, nem muito menos ler os
meus livros de filosofia, que passam léguas acima da sua cabecinha,
bastando-lhe tão-somente lamber por alto meia dúzia de meus artigos e,
vendo aí algumas referências a Deus, concluir que se tratava de
religiosidade fanática e doentia (adjetivos redundantes, já que para ele
toda religiosidade é isso).
Sendo
o sr. Constantino aceito em certos círculos como porta-voz do
liberalismo econômico iluminista, disciplina em cujo domínio o
ex-ministro Ciro Gomes demonstrou que ele tem a agilidade de uma
tartaruga de pernas para o ar, é compreensível que ele pense que todo
mundo que não é igual a ele nem comunista deva ser um esquisitão do tipo
Rajneesh ou Reverendo Moon.
Já
um tal sr. Bertone não sei das quantas, que se diz psicólogo e talvez o
seja mesmo, pois no Brasil tudo é possível, assegura que sou um
representante vivo do “patriarcalismo burguês”, daqueles que em casa
impõem o mais severo moralismo repressivo, mas, quando os filhos chegam
aos quatorze ou quinze anos, os levam a um puteiro para que aprendam a
ser machões exemplares. Na verdade, a instituição mais próxima de um
puteiro à qual fui com meus filhos foi o jardim zoológico. Juro que
jamais os levei ao Congresso Nacional.
Em
contraste com o sr. Bertone, outros disseram que sou um homossexual ou
transexual furioso, desses que não podem ver homem sem ter chilique, e
que viajei para a Europa para trocar de sexo, só restando, na minha
modesta opinião, esclarecer qual sexo eu tinha antes e qual tenho agora,
excluída a hipótese de que eu haja me submetido àquela sangrenta
operação duas vezes, de modo a que ninguém desse pela diferença.
Em
certos meios militares, estimulados pelo conhecimento da minha amizade
de juventude com os srs. José Dirceu e Rui Falcão, e atordoados ante o
fato de que eu fizesse críticas à ditadura ao mesmo tempo que a defendia
contra acusações demasiado inventivas, correu a história de que eu era
um agente de desinformação, um comunista enrustido, íntimo de Nicolae
Ceaucescu (o qual estava morto fazia dez anos quando cheguei à Romênia
pela primeira vez).
Não
espanta, pois, que aqueles que receberam na universidade algumas noções
de marxismo – ou do que se entende por isso nas regiões
intelectualmente inóspitas do Terceiro Mundo --, não consigam resistir à
tentação de me explicar segundo os cânones dessa doutrina, vendo em mim
um agente pago do imperialismo internacional, o qual imperialismo, para
todos os fins de fato e de direito, fica representado nessa história
pelo Diário do Comércio.
O
nosso já conhecido sr. Patschiki alerta a seus companheiros que, de
parceria com essa organização fascista, planejo matá-los a todos. Ele
acredita mesmo nisso, e não me parece que seja possível demovê-lo dessa
convicção aterrorizante sem umas boas palmadas no traseiro, não muito
eficientes, no entanto, porque ele as interpretará como tentativa de
assassiná-lo pela parte mais elevada da sua inteligência.
Publicado no Diário do Comércio.





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