O Rei Momo do Brasil
Ruth de Aquino
Revista ÉPOCA - 12/02/2013
Ele
não pesa 100 quilos, mas foi coroado Rei Momo ao receber de mascarados
as chaves do Senado, a Câmara alta do país. O peemedebista Renan
Calheiros, eleito com votos secretos dos camaradas, presidirá sua
primeira farra: 14 dias de folia. A festa prolongada foi decretada
depois de um mês e meio de recesso e apenas dois dias de “trabalho”.
Isso não existe em nenhum país com um Congresso que se preze. Mas quem
exatamente se orgulha do atual Congresso brasileiro?
É
prudente rasgar a fantasia de representantes do povo se saírem em algum
bloco. O blocão dos envergonhados e sem-vergonhas só escapa de ovos e
tomates porque está encastelado em Brasília e goza férias em ilhas da
fantasia.
Segundo uma enquete do jornal Folha de S. Paulo,
56 senadores votaram em Renan, mas só 35 admitiram que sim. Ausente e
alheio, o senador tucano Aécio Neves foi visto em cima de um muro, com
cara de paisagem. Os tucanos fazem parte de uma espécie em extinção no
Brasil: a oposição.
Enquanto os passistas
assalariados precisam voltar ao batente na Quarta-feira de Cinzas à
tarde ou na quinta-feira de manhã, a corte momesca de Renan e de sua
rainha – o deputado Henrique Alves, presidente da Câmara – poderá
prorrogar o Carnaval sem culpa ou temor. Renan determinou que não haja
votação quinta e sexta. Uma pequena manobra para pagar na íntegra os
contracheques de R$ 26.700 aos travestidos de senadores. Está na hora de
gastar o 14º e 15º salários a que têm direito, pelo regimento interno.
“Quando
voltarmos do Carnaval (dia 19, terça-feira), vamos ter quórum para
votar”, disse Renan, o ético. Nada foi votado na semana passada.
Compreensível. A prioridade é coisa pouca – o Orçamento de 2013, que
deveria ter sido aprovado no ano passado. Você lembra por que não foi. O
Congresso, em greve branca, produziu uma pantomima antes do Natal para
resistir às cassações de parlamentares pelo Supremo Tribunal
Federal.Renan Calheiros preside o Senado por culpa do rabo preso dos
senadores e da falta de cultura política
Agora,
o Orçamento não foi votado por um motivo, segundo Renan: “O óbice foi
que a oposição não queria votar”. Óbice? Nosso idioma é muito rico, mas
“óbice”? Olhei no dicionário. Sinônimos: atravanco, embaraço, empecilho,
estorvo, impedimento, obstáculo. Não aguento Renan falando “óbice”.
Soava mais convincente quando cantava para a amante Mônica Veloso “o que
faço da minha vida sem você”.
Mônica o
descreve, em seu livro O poder que seduz, de 2007, como “o docinho meigo
e meio gordinho” que queria pular Carnaval de rua com ela na Bahia. O
óbice era o casamento. Renan foi gravado em fitas por Mônica, já
grávida, e tachado de “bobo” pela mulher, Verônica. Em epoca.com.br, há
uma resenha minha, chamada “Um livro escrito nas coxas. Mas que coxas”.
Num trecho do relato, Mônica escreve que “a vida caminha mesmo em
círculos”. Hoje, o clichê parece profecia.
Nem
a denúncia da Procuradoria-Geral da República contra Renan nem a
petição pública com mais de 400 mil assinaturas comoveram políticos. No
país da Ficha Limpa e do julgamento do mensalão, soa retrocesso. Sua
foto rindo com Collor não me incomodou nem surpreendeu. O mesmo estofo, o
mesmo cinismo, conterrâneos da safadeza... por que não dariam
gargalhadas? Algum talento cara de pau Renan deve ter herdado, como
marimbondo-mor de José Sarney. O padrinho agora pretende escrever sua
autobiografia, escondendo, claro, a miséria a que ele e sua filha
condenaram o Maranhão.
Surpreendente e
positiva foi a reação organizada de centenas de milhares de brasileiros,
que se insurgiram contra a dança viciada das cadeiras no Congresso. E
em pleno verão, estação das consciências derretidas pelo calor. Não
desanimem. Renan preside o Senado por culpa do corporativismo, do rabo
preso dos senadores e da falta de cultura política. Não será assim para
sempre. Renovar o Congresso exige tempo, investimento em educação,
reforma partidária, voto consciente – e, a meu ver, não compulsório.
Quem
lê, sabe que não foi concluído o processo contra Renan. Ele é acusado
de usar notas falsas e bois-fantasmas para justificar o pagamento de uma
pensão para a filha Catarina, da ex-amante. Há documentos provando que
mentiu. Os R$ 16.500 eram entregues mensalmente em dinheiro a Mônica
pelo lobista da empreiteira Mendes Júnior, beneficiada com uma obra no
porto de Maceió. Segundo a denúncia do procurador Roberto Gurgel, Renan
também desviou dinheiro do Senado. Em sua posse, Renan falou em nome da
ética. Muitos pensaram ser ironia. Leitores se sentiram
ridicularizados.
Segundo a mitologia grega, o
deus Momo acabou expulso do Olimpo porque se divertia ridicularizando
as outras divindades. Na Roma antiga, o Rei Momo era coroado anfitrião
de três dias de orgia. Desfrutava todas as regalias durante a festa,
como comidas, bebidas e mulheres. A lenda é trágica: no fim, o Rei Momo
era sacrificado no altar de Saturno. Por onde anda esse Saturno?





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