Na segunda-feira, os olhos do país se voltaram para o outro lado do edifício - aquele da concha com a borda para cima. Ali seria eleito o segundo homem da República na sucessão presidencial. Assisti pelo canal de tevê da Câmara dos Deputados a todos os discursos da sessão. Foi uma experiência e tanto, ao vivo, para os arregalados olhos da Pátria. Contado não se crê. Havia quatro candidatos. O do governo, o da oposição, e outros dois muito antes pelo contrário. No entanto, os quatro discursaram como se oposição fossem. Disseram que a Casa se omite em temas gravíssimos como pacto federativo. Que permite o uso inescrupuloso das medidas provisórias e o esbulho federal sobre Estados e municípios. Que a reforma institucional não anda. Que as emendas parlamentares, assim como são tratadas, aviltam o Congresso. Que ao se omitir na votação de vetos presidenciais (mais de três mil pendentes de deliberação), o legislativo transfere ao governo a última palavra na elaboração das leis. Que isso equivale a renúncia de prerrogativa. Que a instituição é o coração da democracia e a representação mais legítima do povo em sua pluralidade e totalidade. Que apesar disso - e isso não é pouca coisa! - o poder se põe em cócoras. Que, à medida em que permitiu que o apequenassem, foi perdendo o apreço e, depois, o respeito da sociedade. Os aplausos, pasmem, rugiam em puro êxtase!
Ouvindo tudo, o presidente Marco Maia fazia ares de quem nada tinha a ver com aquelas pautas unanimemente coletivas. Mas cada discurso, se bem ouvido, era um libelo contra si. Clamava-se por tudo que ele não fez. Os quatro candidatos se comprometiam, solenes, com passar uma borracha nas linhas omissas e submissas de sua gestão. O próprio candidato de dona Dilma, vitorioso, dissecou, uma a uma, as culpas do legislativo perante seus próprios males. Em português claro: posicionou-se contra, eloquentemente contra, tudo que ele mesmo e o grupo ao qual pertence e que o apoiava vêm fazendo no parlamento, com o parlamento e do parlamento. Para mim, depois do dilúvio, tamanho cinismo foi a gota d'água.
Publicado no jornal Zero Hora.





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