Valentina de Botas:
João Doria também ousou ao rejeitar culpas que tentaram lhe atribuir pelo que é: um empreendedor pra lá de bem-sucedido; isso num país em que a metafísica jeca-dominante oscila entre o ressentimento pelo sucesso alheio e o desejo publicamente secreto de ter sucesso, além de ser uma terra estranha onde quem gera emprego paga caro por isso, visto como criminoso pelo mesmo olhar que enxerga redentores nos lulopetistas. A maltratada cidade de São Paulo merece que Doria seja bem-sucedido como prefeito e também o partido, importante agente da democracia brasileira que, com apenas sete anos de existência, deu ao país o melhor presidente da nossa história.
Fernando Henrique foi o estadista que é também por ter sido corajoso e as tímidas (no contexto da necessidade do país), mas ousadas (no contexto da mentalidade do país) privatizações são o maior, e talvez único, exemplo da coragem do partido. A gestão modernizadora e o fato de ter se configurado numa espécie de reserva moral da nação integram a biografia do nosso único estadista vivo que, para meu lamento, ele mesmo diminuiu ao exagerar na discrição institucional com que se comportou nos 13 anos de lulopetismo, culminando na insistência irritante em dizer até outro dia que Dilma Rousseff-é-honrada-no-sentido-pessoal.
As privatizações da era tucana fazem parte da corajosa modernização que o PSBD ampliou depois de algumas iniciativas do governo de Fernando Collor (o fim da lei de reserva de mercado de informática e a abertura para importação de automóveis, por exemplo). Mas a coisa não ficou aí; só para dar um exemplo, houve também a arejada gestão de Paulo Renato no Ministério da Educação instituindo, entre outras medidas, o Provão para avaliar as universidades e a estruturação das disciplinas do ensino médio que se articulavam de modo muito menos estanque do que hoje.
São mudanças cujos efeitos não se restringem às respectivas áreas nem ao objeto imediato – economia e educação – não só porque, é claro, alcançam a sociedade como um todo diretamente ou indiretamente, mas também porque a faz pensar a respeito de si mesma. Ou seja, as inovações planejadas com método e honestidade para a melhora do país o tornam discurso, assunto e projeto de si mesmo: a nação pensa a nação. Para isso, nem é necessário que haja inovações; no caso do Brasil elas são essenciais – o país clamava e clama ainda por mudanças urgentes –, mas o fator imprescindível para que uma nação seja assunto de si mesma é o governo fazer o mesmo.
Os governos petistas dos últimos 13 anos tinham a si próprios como causa cuja libido autoritária rebaixou o Estado ao meio pelo qual patrocinavam a espúria causa de si mesmos, espúria desde logo só por ser a causa. Depois de colossal e prolongado esbulho múltiplo, mais do que a tal tardia guinada à direita, a sociedade brasileira, nestas eleições municipais, apresentou-se finalmente como parte interessada nos próprios interesses, devastando o petismo e, na capital do estado mais antipetista do país, o prefeito eleito é de um partido que só é chamado de direita neste estranho florão da América. Entretanto, o novo prefeito não se elegeu pelo discurso de direita ou de esquerda, mas por um discurso que teve a coragem de pronunciar a sanidade: os interesses da cidade, não os de uma igrejinha, de guetos bike-pensadores ou de militantes narcisistas de pautas estranhas às necessidades da cidade real. Isso é antipetismo e, ao chutar a sacrossantidade de Lula, Doria empreendeu certo antitucanismo.
A eleição dele tem menos a ver com ideologia, me parece, e mais com a exaustão dos brasileiros (ou paulistanos) em patrocinar a causa espúria. Enquanto os petistas mantiveram o país a patrocinando, o PSDB, sem medo de ver a nação de memória volátil esquecer o que representou a era FHC, aderiu à covardia, tendo breves espasmos de coragem nas eleições presidenciais a que o partido restringiu a deplorável atuação como oposição. Aí, veio João Doria, mas não só: o PSDB ampliou o número de prefeituras que comandará a partir de janeiro próximo. Esse crescimento e demais circunstâncias das eleições municipais que prevalecem no país restauram o partido como uma alternativa ao petismo no plano federal. Isso, claro, se não lhe faltar para o desafio externo a coragem que sobra para fazer adversários internos. E, aí, PSDB, vai encarar?
EXTRAÍDADECOLUNADEAUGUSTONUNESFEIRALIVREVEJA





0 comments:
Postar um comentário