editorial de O Globo
O que pareceria um efeito da crise financeira de 2008 a retardar a
retomada do crescimento, começa a ser visto pelo que de fato é: uma
tendência de mudança da ordem mundial, caracterizada sobretudo por uma
perigosa aversão à integração global. Tanto no campo político quanto na
economia, uma desconfiança generalizada se espalha, traduzindo-se em
propostas de fechamento de fronteiras, medidas protecionistas, redução
do comércio mundial e expansão de radicalismos populistas, à direita e à
esquerda.
O fenômeno Donald Trump na campanha eleitoral americana; a recente saída
do Reino Unido da União Europeia, Brexit; e o avanço de movimentos
políticos nacionalistas em eleições regionais e majoritárias em França,
Alemanha, Espanha, Hungria, Polônia e Grécia evidenciam o fenômeno, que
alguns já chamam de desglobalização. Não é de surpreender, portanto, que
o tema tenha entrado no radar de cientistas políticos e economistas e
dominado os debates entre ministros de Finanças e presidentes de bancos
centrais durante o encontro anual de FMI e Banco Mundial, em Washington,
na semana passada.
Segundo o FMI, desde 2012 o comércio mundial vem crescendo apenas 3% ao
ano, menos da metade da taxa de expansão verificada nas últimas três
décadas. Entre 1985 e 2003, as trocas de bens e serviços entre países
cresceram duas vezes mais rapidamente do que o PIB mundial, mas, nos
últimos quatro anos, o comércio mundial sequer conseguiu manter o passo.
E essa desaceleração ocorreu tanto em países desenvolvidos quanto entre
emergentes. De acordo com a OMC, ele deve crescer apenas 1,7% este ano,
marcando a primeira vez em 15 anos que a expansão é mais lenta do que a
da economia mundial.
É sintomático que o Reino Unido de Margaret Thatcher lidere agora um
movimento de isolamento. Mas a premier britânica, Thereza May,
aproveitou a aprovação do Brexit — marcadamente um voto antiglobalização
— para propor uma lei obrigando as empresas do país a informar quantos
estrangeiros têm em suas folhas de pagamento. A medida está sendo
comparada à legislação nazista para identificar judeus na Alemanha.
Em artigo no “Financial Times”, o ex-secretário do Tesouro dos EUA Larry
Summers alertou que, confrontados por discursos populistas e promessas
de soluções miraculosas, líderes e ideias convencionais parecem ter
perdido a iniciativa, e a economia global estaria entrando num
“território inexplorado e perigoso”. Segundo ele, o Brexit; a ascensão
de Trump e Bernie Sanders, dois extremos, na campanha eleitoral
americana; o crescimento da extrema-direita nacionalista em eleições
regionais na Europa; o fortalecimento do líder russo Vladimir Putin; e a
volta à veneração de Mao na China são sintomas do retorno do populismo
autoritário. Os sinais são de fato preocupantes, pelo que representam em
retrocesso político e econômico. O mundo precisa de integração e
abertura, não o contrário.
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