por Ruy Fabiano COM O BLOG DO NOBLAT O GLOBO
O escândalo maior é este: em vez de punir, providenciar a blindagem no Judiciário, cuja independência, até prova em contrário, está longe de convencer a população
Tédio e escândalos são termos antípodas que, em tese, se repelem.
Exceto, claro, por aqui. A profusão de escândalos, como parte do
cotidiano da vida pública, retirou do cidadão brasileiro a capacidade de
se espantar. A cada denúncia, um bocejo.
O fenômeno é antigo, mas, diante das proporções sistêmicas impostas
pelos governos do PT, supunha-se que tal anomalia estaria superada. Não
está. Após a indignação inicial, volta a predominar a sensação de
impotência diante de uma máquina estatal cujo controle está fora do
alcance de quem a sustenta.
Tão chocante quanto a devastação dessa máquina por bandidos de colarinho
branco é o empenho governamental em providenciar sua defesa na mais
alta corte do país, nomeando aliados, para prevenir (ou impedir) a
aplicação da Justiça.
Funcionou no Mensalão, que esta semana inteirou uma década de sua
denúncia. E onde estão seus mentores? Todos soltos, como dizia Dilma na
campanha eleitoral, referindo-se aos tucanos que o PT denunciava e que,
em 13 anos no poder, não se interessou em condenar. Os mensaleiros foram
condenados, mas estão soltos. Presos estão apenas os empresários que
cooptaram para suas manobras. E a reviravolta se deu no STF.
A admissão dos embargos infringentes, questionadíssima por numerosos
juristas naquela ocasião, reabriu o caso e permitiu retirar a acusação
de formação de quadrilha, mesmo restando evidente que outra qualificação
não há para um grupo de pessoas que se associam com o objetivo comum de
cometer ilícitos.
Com a admissão dos embargos, reabriu-se o julgamento, reduziram-se as
penas e os agentes políticos – José Dirceu, José Genoíno, João Paulo
Cunha e outros petistas – livraram-se da prisão em regime fechado. Hoje,
estão em casa.
A reversão da maioria, naquela oportunidade, deveu-se à aposentadoria de
alguns ministros, permitindo que novos aliados lá chegassem e mudassem
os critérios de julgamento. É o que se preparava agora para os réus do
Petrolão.
Não fosse a recente aprovação, pelo Congresso, da PEC da Bengala, que
estende para 75 anos a idade de aposentadoria compulsória nos tribunais
superiores, Dilma nomearia, no curso de seu mandato, nada menos que
cinco novos ministros para o STF - o que, vale dizer, iria lhe garantir,
digamos assim, interlocução mais íntima com a maioria daquela corte.
Restou-lhe, agora, uma única nomeação, em vaga aberta com a renúncia de
Joaquim Barbosa. Levou nove meses para indicar o advogado Luiz Edson
Fachin, cabo eleitoral de sua campanha ano passado. Seu perfil político
já foi detalhadamente exposto na imprensa e nas redes sociais.
Dispenso-me de repeti-lo.
Não lhe faltam qualidades técnicas – como faltaram a José Antônio Dias
Toffoli, ex-advogado do PT, que chegou ao STF sem obras publicadas (que
atestariam a exigência constitucional de “notório saber jurídico”) e com
um histórico de duas reprovações para concurso de juiz de primeira
instância.
Fachin preenche esse quesito, mas iguala-se a Toffoli no que diz
respeito à isenção. Até ser indicado ao STF, era notório militante de
causas que afrontam a própria Constituição, como o questionamento à
propriedade privada e o perfil tradicional da família. Negou tudo isso
na sabatina do Senado, a uma plateia que não tinha qualquer dúvida
quanto ao teor teatral do depoimento.
Mesmo assim, foi aprovado e há poucas dúvidas de que o será também em
plenário na próxima terça-feira. Note-se que as discussões, dentro e
fora do Congresso, hoje, em face do fervor ideológico, passam ao largo
do aspecto penal das denúncias.
O que está em pauta são crimes contra o patrimônio público. Roubo não é
de direita ou de esquerda. É roubo. Não obstante, a militância
governista despreza essas evidências e procura trazer o debate para o
campo político. E busca apontar nos adversários práticas equivalentes,
como se isso os absolvesse – e que, se confirmadas, teriam que ter sido
punidas por quem ocupa o poder há mais de uma década.
Quando as delações premiadas mencionam os petistas, são postas em
dúvida; afinal, trata-se, como disse Lula, da palavra de corruptos. Mas,
quando mencionam algum oposicionista, ainda que sem qualquer
fundamentação, ganham súbita credibilidade e o delatado torna-se alvo da
militância nas redes sociais.
O escândalo maior é este: em vez de punir, providenciar a blindagem no
Judiciário, cuja independência, até prova em contrário, está longe de
convencer a população.
EXTRAÍDADEROTA2014BLOGSPOT





0 comments:
Postar um comentário