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09:02
ANDRADEJRJOR
ROLF KUNTZ O ESTADÃO

Vai piorar, disso
ninguém duvida, e os brasileiros já vão mal antes de começar o arrocho
para valer. O desemprego chegou a 7,9% no primeiro trimestre, embora a
austeridade nas contas públicas, nesta altura, seja pouco mais que uma
promessa. Com a indústria em crise e o empresariado à beira do pânico, a
economia nacional entra muito fraca na fase do aperto. O pacote inicial
do ajuste continua no Congresso, foi amaciado e deverá render menos que
os R$ 18 bilhões estimados inicialmente. Os primeiros cortes no
Orçamento ainda serão anunciados. O governo terá de agir com mão pesada,
nos próximos meses, se quiser mesmo entregar o resultado fiscal
prometido - um superávit primário de R$ 66,3 bilhões para pagar juros da
dívida pública. A crise do Tesouro é evidente e por enquanto se
manifesta em sinais esparsos, como a limitação de verba para o
financiamento a estudantes. Mas a terapia pesada está só no horizonte e
tentar adiá-la jogaria o País num buraco muito mais fundo.
Quem
garante, nesta altura, a execução do programa de ajuste? Os negociadores
inicialmente escalados pela presidente, seus petistas de confiança,
foram afastados por indisfarçável inépcia para a função. Passaram a
negociar em nome do governo o vice-presidente, Michel Temer, e o
ministro da Fazenda, Joaquim Levy.
Acuada e incapaz de se
defender, a presidente Dilma Rousseff cumpre a rotina funcional de forma
limitada e discreta. Não demonstra disposição para enfrentar os
panelaços nem para cobrar apoio de seu partido. Petistas votaram a favor
da Medida Provisória 665, na Câmara, porque foram enquadrados pela
liderança do PMDB. Os principais temores e esperanças do governo são
hoje representados por figuras peemedebistas, especialmente pelos
presidentes do Senado e da Câmara, Renan Calheiros e Eduardo Cunha, e
pelo vice-presidente da República.
O aliado mais importante
converteu-se na verdadeira base do governo, porque os líderes do PT se
negaram, até agora, a suportar o custo político da reparação dos danos
causados na última fase da gestão petista.
Enquanto o ministro da
Fazenda busca apoio ao seu programa e o vice-presidente se consolida
como a imagem política do Executivo, a economia afunda no atoleiro. A
inflação oficial diminuiu de 1,32% em março para 0,71% em abril, mas o
cenário dos preços continua aterrador. A inflação chegou a 4,56% em
quatro meses, superando a meta oficial para todo o ano, 4,5%. A alta de
preços acumulada em 12 meses chegou a 8,17%. Se a taxa mensal de 0,71%
se repetir até dezembro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)
subirá 10,65% neste ano.
A combinação de inflação elevada com
desemprego imporá aos trabalhadores um sacrifício desconhecido há vários
anos. O desemprego continuará a aumentar se a indústria permanecer em
crise. A produção industrial diminuiu 0,8% de fevereiro para março. No
primeiro trimestre foi 5,9% menor que a de um ano antes. Na comparação
de dois períodos consecutivos de 12 meses a queda foi de 4,7%.
Não
haverá recuperação segura sem maiores investimentos, mas isso parece,
por enquanto, fora da agenda. Nos 12 meses até março a produção de bens
de capital, isto é, de máquinas e equipamentos, foi 13,8% inferior à dos
12 meses anteriores. De janeiro a abril a importação de bens de capital
foi 12,3% menor que a dos meses correspondentes de 2014. A redução de
compras de máquinas e equipamentos ocorre há mais de um ano. Não se tem
cuidado da ampliação nem da modernização da capacidade produtiva. Isso
significa perda de eficiência e de poder de competição.
Com os
erros acumulados nos últimos quatro ou cinco anos, o governo montou um
conjunto de bombas interligadas. A gastança, os benefícios fiscais mal
concebidos e a estagnação econômica - prova do fracasso de todos os
truques - arrasaram as contas públicas. O déficit fiscal, incluído o
gasto com juros, chegou a 7,8% do produto interno bruto (PIB), um dos
piores resultados do mundo. A gastança, o populismo e o crescente
descompasso entre a demanda interna e a capacidade produtiva provocaram
uma inflação muito acima dos níveis observados nos países desenvolvidos e
emergentes. O enfraquecimento da indústria derrubou a exportação de
produtos manufaturados. O País tornou-se ainda mais dependente das
vendas de bens primários e, portanto, do crescimento da China, hoje
sujeito a uma política de ajustes internos.
Com a inflação
disparada, o Banco Central tem sido forçado a elevar os juros básicos da
economia. A taxa passou a 13,25% no fim do mês passado e provavelmente
voltará a subir nos próximos meses. Isso aumentará os custos financeiros
de um Tesouro muito endividado e ao mesmo tempo dificultará a
reativação dos negócios, especialmente da atividade industrial. Com os
negócios em marcha mais lenta, a receita tributária será prejudicada e o
ajuste das contas públicas ficará mais difícil. O quadro poderá
melhorar nos próximos meses se o governo retomar as concessões de
infraestrutura e de exploração do petróleo com eficiência maior que a
exibida nos últimos anos. Mas isso também dependerá de maior realismo
quanto às condições de negociação. Obviamente a Petrobrás será incapaz
de manter os padrões de participação observados nos últimos anos. Nada
disso ocorrerá, é claro, sem aumento da confiança dos investidores no
governo e nas possibilidades da economia brasileira.
Na sua
fantasia, a presidente Dilma Rousseff continua incapaz de admitir ou,
talvez, até de entender os próprios erros. Falando a sindicalistas antes
da festa de 1.º de Maio, ela atribuiu os males do País à crise
internacional e a “anos contínuos de seca no Brasil”. Houve seca em
algumas áreas, mas desde 2004-2005 a produção de grãos e oleaginosas só
diminuiu na safra 2008-2009. Em todos esses anos o agronegócio foi de
longe o setor mais dinâmico. A indústria foi muito mais vulnerável às
bobagens de um dos governos mais incompetentes da História nacional.
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