editorial da Folha de São Paulo
Estendendo-se por cerca de 11 horas, mostrou-se um teste de resistência
física e mental a sabatina a que o advogado Luiz Edson Fachin foi
submetido na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, na
terça-feira (12).
O recorde demonstra o quanto ganhou, em espetacularidade e interesse, a
avaliação dos futuros integrantes do Supremo Tribunal Federal. Há mais
novidades, porém, nas circunstâncias que acompanham a indicação de
Fachin para a vaga de Joaquim Barbosa.
Montou-se, em favor do candidato, uma verdadeira operação de relações
públicas. Empresas especializadas e com ampla experiência no palco da
política nacional agiram para promover Fachin.
Na sabatina, o advogado declarou ignorar quem financiava os
profissionais contratados em seu favor. Tal desconhecimento não evita,
em tese, que se abram flancos a alguma revelação futura quanto aos
adeptos do ministro.
De todo modo, não foi esse o único momento em que as respostas de Fachin
se notabilizaram pelo descompromisso e pela generalidade.
Tendo em vista os inúmeros ataques que se dirigiam ao indicado –aos
quais não faltou a marca do exagero e do patrulhamento–, o principal
resultado da sabatina foi o de cercar a figura de Fachin de espessa
névoa de neutralidade.
Mais que eventuais radicalidades de opinião, o que se torna
especialmente criticável foi o fato de o sabatinado evitar, de modo
sistemático, prestar esclarecimentos efetivos sobre suas reais ideias,
passadas ou presentes.
Não se tratava apenas de afastar o compreensível risco de antecipar
algum eventual voto sobre caso específico. Também em questões puramente
teóricas o pretendente a ministro optou pela desconversa.
Será que considera intocável o limite da maioridade penal vigente na
Constituição? Sem querer desagradar à chamada bancada da bala, Fachin
tergiversou. Acredita que, em tese, um presidente da República reeleito
deve ser responsabilizado em processo de impeachment pelo que fez no
mandato anterior?
Não houve resposta –e tudo seguiu assim por 11 horas, após as quais
Fachin recebeu 20 votos de aprovação e 7 de rejeição. Nas contas de seus
estrategistas, o suficiente para garantir o aval do plenário.
Se há, aos poucos, progresso institucional na extensão e na qualidade
dos questionamentos, é de lamentar que o mesmo não ocorra com o estilo
das respostas.
Não apenas pela prudência excessiva dos candidatos, mas sobretudo por um
renitente vezo cultural da política brasileira: o medo à verdade e à
clareza, já tão prejudicial nas campanhas a cargos eletivos, parece
estender-se agora também ao mundo das convicções jurídicas e do debate
de princípios.
EXTRAÍDADEROTA2014BLOGSPOT





0 comments:
Postar um comentário