Rogério Furquim Werneck O GLOBO
Governo e PT continuam alimentando falsa esperança de que superação da crise poderá ser rápida como em 2003
Quanto tempo mais será necessário para que o país supere a grave crise
em que está mergulhado e volte a ter perspectivas promissoras? É o que,
hoje, se perguntam todos: o governo, os partidos que lhe dão apoio, a
oposição, o empresariado, os investidores e, claro, cada cidadão que
tenta vislumbrar o que o futuro lhe reserva.
Não é indagação para a qual se possa dar resposta clara e inequívoca.
Tal é a complexidade com que interagem as múltiplas dimensões da crise,
que respostas mais cuidadosas — e, ainda assim, decepcionantemente
evasivas — vêm exigindo intrincada conjugação de considerações de ordem
econômica, política e jurídica.
No entanto, os que indagam sobre a duração da crise insistem numa
resposta simples e direta. Têm decisões a tomar. Pouco ou nada lhes
ajuda uma profusão de cenários alternativos, calcados em análises
multidisciplinares complexas. Preferem agarrar-se a uma história
simplista da qual possam extrair uma resposta inequívoca que lhes pareça
plausível.
É o que explica a coexistência no país de vasto leque de narrativas
distintas acerca da duração da crise, que não só espelham simplificações
diferentes dos seus possíveis desdobramentos, como conveniências e
restrições específicas de quem desenvolve cada narrativa. No próprio
governo, há narrativas divergentes.
O Planalto ainda não tem ideia clara de quanto tempo mais durarão suas
dificuldades. Mas continua tentado a crer que, na economia, pelo menos, a
luz no fundo do túnel vai aparecer bem mais cedo do que se espera.
Embora haja, na nova equipe econômica, quem tenha visão mais realista de
quão lentos deverão ser os resultados da reorientação da política
econômica, tal realismo ainda não pôde ser externado com a devida
franqueza ao Planalto.
Afinal, a própria reorientação parece só ter sido possível porque a
cúpula do governo se permitiu nutrir uma visão fantasiosa sobre a
rapidez com que os resultados poderiam vir a ser colhidos.
Mais variadas ainda são as narrativas sobre a duração da crise que
prosperam na base aliada do governo. Há grande apreensão no PT com a
aposta no ajuste que vem sendo comandado pelo ministro Joaquim Levy. No
amplo espectro de posições sobre a questão no âmbito do partido, há quem
creia que a aposta não faz sentido. Mas, também, quem veja mérito no
esforço de ajuste e esteja pronto a defendê-lo, desde que a colheita de
resultados possa ser rápida.
Não obstante as circunstâncias completamente distintas, tanto o governo
como o PT continuam alimentando a falsa esperança de que a superação da
crise atual poderá ser tão rápida como em 2003. Tudo indica que não
será. Em 2003, o ambiente externo era muito mais favorável. O país
estava estava sendo beneficiado pelo boom de preços de commodities. E o
problema interno primordial resumia-se à restauração da confiança no
governo. Agora, tendo em vista as proporções da devastação fiscal, dos
equívocos de política econômica, da demolição institucional e da
corrupção, o esforço de reconstrução terá de ser muito maior.
Manter o PT alinhado ao programa de ajuste do governo não tem sido
fácil. Se a equipe econômica não tem podido ser tão franca como gostaria
com o Planalto, menos franca ainda vem tendo de ser com o PT. O quadro é
delicado. E todo cuidado é pouco. Se o partido for exposto a uma
narrativa realista da provável duração da crise, é bem possível que seu
já tépido apoio à política econômica de Levy desapareça por completo.
O problema é que esse jogo não pode ser jogado por muito tempo mais. Nos
próximos meses, tanto o Planalto como o PT estarão fadados a se
desiludir com a fantasia de que os resultados do ajuste macroeconômico
poderão ser colhidos em breve. Aos poucos, vão constatar, afinal, que a
superação da crise deverá ser bem mais longa e mais penosa do que
imaginavam.
Quando essa dura realidade se impuser, com o PT já mobilizado para a
campanha das eleições municipais de 2016, terá o Planalto convicção e
respaldo político para persistir no esforço de ajuste que ainda se fará
necessário?
EXTRAÍDADOBLOGROTA2014





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