editorial do Estadão
O
recado é muito claro. Os brasileiros saíram às ruas - cerca de 1 milhão
só em São Paulo - para dizer que não aceitam os caminhos pelos quais a
presidente Dilma Rousseff e o PT estão conduzindo o País. Foi uma
contundente manifestação espontânea, com o predomínio da classe média -
assalariados, profissionais liberais, pequenos empreendedores, jovens e
idosos - a exigir dos governantes probidade e competência na gestão da
coisa pública.
O
desprezo pela probidade por parte do partido que dirige o País há mais
de 12 anos está cruamente exposto na sucessão de dois grandes escândalos
de corrupção: o mensalão e o da Petrobrás. Com a agravante de que o PT,
depois de mais de 20 anos de oposição implacável a "tudo o que está
aí", chegou ao poder jurando acabar com a corrupção na administração
pública.
Por
outro lado, nos quatro anos de seu primeiro mandato, na tentativa
desastrada de combater os efeitos da crise econômica internacional com
medidas "anticíclicas" - orientadas, na verdade, por uma visão econômica
anacrônica de viés ideológico -, entre outras proezas Dilma Rousseff
conseguiu provocar a redução do investimento produtivo e a estagnação da
indústria nacional, enquanto promovia uma gastança descontrolada que
estourou as contas públicas e devastou as contas externas. Em resumo,
conseguiu terminar seu primeiro mandato com o País em situação econômica
pior do que a que encontrou em 2011.
Os
brasileiros que saíram às ruas em 15 de março disseram basta a tudo
isso, inclusive à teimosia da presidente da República em não admitir
seus erros. Dilma concede, no máximo, como fez semana passada no Rio de
Janeiro, que "esgotamos todos os nossos recursos de (sic) combater a
crise que começou lá em 2009". E agora não tem nem disposição pessoal
nem força política para adotar as medidas de correção que a vida real
impõe.
Nesse
sentido, embora as manifestações de protesto tenham sido focadas em
Dilma e no PT, abrangeram como um todo o ente governamental - ou "a
política" - e podem por essa razão produzir no Congresso o efeito
positivo de facilitar a aprovação das medidas de ajuste fiscal propostas
pelo Executivo. Afinal, os parlamentares estão empenhados em afirmar
diante do Executivo a autonomia do poder que representam, mas sabem
perfeitamente de onde vêm os votos que os elegem.
A
teimosia de Dilma e sua pouca disposição para dar ouvidos ao que o povo
exige ficou mais uma vez evidente nas palavras de dois ministros - José
Eduardo Cardozo, da Justiça, e Miguel Rossetto, da Secretaria-Geral da
Presidência - escalados para, em entrevista coletiva, dar a resposta do
governo à voz das ruas.
Cardozo
falou para o público em geral e Rossetto, para os petistas. O primeiro
repetiu todas as obviedades sobre manifestações democráticas e requentou
as promessas de um pacote de medidas contra a corrupção e outro sobre
reformas políticas. E logo depois de Cardozo ter afirmado que protestar é
"um direito de todos", Rossetto contradisse-o, desqualificando as
manifestações com o argumento de que quem saiu às ruas foi
principalmente quem "não votou em Dilma". E fez questão de valorizar,
mencionando-as duas vezes, as manifestações realizadas dois dias antes -
com público significativamente menor do que as de domingo - organizadas
pela CUT e outras entidades sobre as quais o PT exerce influência.
O grave é que não ouviram o que o povo falou.
E
o povo falou que Dilma - reeleita há quatro meses - já não merece sua
confiança. Falou que não quer mais, encastelada no governo, uma
quadrilha que assalta sistematicamente a Fazenda Pública. Falou que não
mais tolera uma administração que não trabalha para benefício de todos, e
sim para a perpetuação de um projeto de poder que repudia, por
antidemocrático e divorciado do interesse nacional. Falou, enfim, que
não quer sustentar com seu suado trabalho uma oligarquia que se
refestela no engodo, na corrupção e na desmoralização das instituições.
Nada disso a presidente Dilma Rousseff e seus asseclas ouviram. Até quando continuará esse descompasso com a realidade?
EXTRAÍDODOBLOGROTA2014





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