Miriam Leitão: O GLOBO
O melhor caminho para quebrar a Previdência na atual geração é o da
demagogia. Foi ele que o PT optou por seguir. Se a preocupação é com as
próximas gerações, é preciso olhar para as contas da Previdência e
discutir uma solução. Elas já estão com déficit enorme, mesmo o Brasil
sendo um país de jovem.
O assunto precisa ser discutido. O fator previdenciário não é uma boa
solução para a Previdência. Mas retirá-lo será pior. O fator deveria ser
substituído por um mecanismo permanente que aumentasse o tempo de
contribuição.
A mudança na Previdência é uma discussão politicamente antipática,
indigesta. Mas é uma decisão importante para o país, para o equilíbrio
das contas públicas. E o maior responsável por conduzir o processo é o
governo, que não tem assumido esse papel. Os deputados do PT, que
preferem fazer demagogia com suas bases a resolver o problema da
Previdência, também são irresponsáveis.
Eles não conseguem se comprometer de maneira sincera com o ônus de
comandar o Brasil. É pesado governar o país. Exige a tomada de decisões
importantes, assumir posições que colocam o político em confronto com o
eleitorado. Mas é preciso explicar aos eleitores o porquê de se mudar a
Previdência, por exemplo. O PT, contudo, quer o melhor dos mundos:
governar fazendo demagogia.
O resultado da votação de quarta-feira foi desastroso. A Câmara mudou a
regra do fator previdenciário para deixar de descontar a aposentadoria
daqueles cuja soma da contribuição com a idade seja 85 anos, no caso das
mulheres; e 95 anos, dos homens. Fez isso com a colaboração do PT, que
quer o bônus de estar no poder sem o ônus de governar.
A oposição também votou para mudar o fator previdenciário, inclusive os
deputados do PSDB, partido que criou o mecanismo em 1999 porque não
conseguira aprovar a idade mínima para a aposentadoria pelo INSS. A
oposição várias vezes sustentou propostas do governo Lula e Dilma porque
acreditava que era o melhor para o país, como na MP 665, que alterou a
regra de acesso ao seguro-desemprego. Mas por que votar na medida do
governo quando nem o PT vota a favor? A proposta defendida pela oposição
durante a campanha era exatamente rever o fator previdenciário,
discutir um mecanismo para substituir o fator, que foi criado para ser
temporário.
O governo, nesta quinta-feira, diz que vai vetar a emenda. Mas os
parlamentares, da mesma forma que aprovaram, podem derrubar o veto. O
que o governo precisa fazer, imediatamente, é começar uma negociação
para decidir o que será da Previdência. Se a intenção é quebrá-la nessa
geração, e a próxima já não ter como se aposentar pelo INSS, a demagogia
é o melhor caminho. Se a intenção é olhar com coragem as obrigações que
o Brasil tem com as próximas gerações, é preciso encontrar uma solução
para o déficit da Previdência.
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