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21:55
ANDRADEJRJOR
MERVAL PEREIRA O GLOBO

A cada dia que passa, o
ex-presidente Lula vai perdendo sua aura de intocável. Surgem aqui e ali
histórias envolvendo seu santo nome, quase nunca em vão. As mais
recentes são exemplares de como os fatos acabam sendo revelados, mesmo
que se queira escondê-los.
Na CPI da Petrobras, o doleiro Alberto
Youssef reafirmou ontem a convicção de que o Planalto sempre soube do
"petrolão". "Como não saber?", perguntou aos interlocutores. Para
explicar sua certeza de que tanto Dilma quanto Lula sabiam, Youssef
contou que entre 2011 e 2012, na gestão Dilma, houve uma divisão no
comando do PP, e não se sabia quem estava no comando.
O
ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa consultou o Planalto e
voltou com a orientação oficial: Ideli Salvatti, ministra das Relações
Institucionais, e Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência,
eram os indicados para decidir quem no PP deveria receber as quantias em
dinheiro desviadas da Petrobras.
Lula chegou a pedir desculpas
ao povo brasileiro quando estourou o caso do mensalão, e se disse
traído, não disse por quem, mas todos compreendiam a quem queria
atingir, seu Ministro mais forte e próximo, José Dirceu, chefe da Casa
Civil, que acabou preso em consequência do processo aberto no Supremo.
Mais
adiante, quando a repercussão do escândalo já havia amainado, Lula
passou a dizer simplesmente que o mensalão nunca existira, e garantiu
até que se dedicaria a provar isso. Nunca fez um mísero gesto nesse
sentido, mas em público manteve a postura de que o mensalão teria sido
manobra contra seu governo.
Agora, vem a público um livro que
revela a verdade de Lula que não poderia ter sido revelada. O livro
sobre José Mujica, o ex-presidente uruguaio, a certa altura revela que
Lula, em 2010, em uma conversa com ele, admitiu a existência do
mensalão.
Segundo o relato dos jornalistas Andrés Danza e Ernesto
Tulbovitz, "Lula teve que enfrentar um dos maiores escândalos da
História recente do Brasil: o mensalão, uma mensalidade paga a alguns
parlamentares para que aprovassem os projetos mais importantes do
Executivo. Compra de votos, um dos mecanismos mais velhos da política.
Até José Dirceu, um dos principais assessores de Lula, acabou sendo
processado pelo caso. (...) Lula não é um corrupto como Collor de Mello e
outros ex-presidentes brasileiros", disse-nos Mujica.
Ele
contou, além disso, que Lula viveu todo esse episódio com angústia e um
pouco de culpa. "Neste mundo tive que lidar com muitas coisas imorais,
chantagens", disse Lula, aflito, a Mujica e Astori (vice-presidente
eleito), semanas antes de eles assumirem o governo do Uruguai. "Essa era
a única forma de governar o Brasil", justificou-se.
O que era
para ser uma referência condescendente, quase elogiosa, a Lula
desencadeou uma crise política que um dos autores do livro tentou
conter, assumindo que descrevera de maneira equivocada o diálogo. "Lula
estava falando sobre as "coisas imorais" [praticadas em seu mandato], e
não sobre o mensalão. O que Lula transmitiu ao Mujica foi que é difícil
governar o Brasil sem conviver com chantagens e "coisas imorais"",
tentou explicar Danza.
Para azar dele e de seu companheiro de
empreitada, a revista em que trabalham, "Búsqueda", publicou na edição
que chegou às bancas na quinta-feira uma resenha do livro "Una oveja
negra al poder", intitulada "Lula: el mensalão era la única forma de
gobernar Brasil". O próprio Mujica, que já assinara o livro em noite de
autógrafo, dando a ele um ar de legitimidade, teve que intervir,
afirmando: "Lula jamais falou em mensalão nas conversas comigo. Uma vez
me disse que, por ter uma minoria parlamentar, o chantageavam". E
arrematou, para mal dos pecados dos autores do livro: "Se os jornalistas
escreveram isso, é por conta deles".
Nada mais ridículo do que o
papel de um ex-presidente tendo que assumir de público que seus
biógrafos oficiais distorceram suas palavras, as únicas do livro que
foram desmentidas, pelo que se sabe.
Talvez essas histórias não
bastem para incriminar o ex-presidente Lula, mas o conjunto da obra -
inclusive a ligação com as empreiteiras e os favores recebidos mesmo
depois de ser presidente - acaba formando um quebra-cabeça que
dificilmente deixa de ser montado por quem não é crédulo ou não faz
parte do esquema político beneficiado.
EXTRAIDADEAVARANDABLOGSPOT
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