editorial do Estadão
O Brasil continua mal colocado nos levantamentos dos organismos
multilaterais sobre qualidade de ensino. Na avaliação de 76 países
realizada pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE) que será divulgada nos próximos dias durante o Fórum Mundial de
Educação, na Coreia do Sul, o Brasil está na 60.ª posição - atrás de
países latino-americanos com economias mais fracas, como Uruguai e
Chile, e até do Irã, no Oriente Médio, que enfrentou uma guerra de
grandes proporções nas últimas décadas.
Os cinco melhores colocados no levantamento foram países asiáticos -
Cingapura, Hong Kong, Coreia do Sul, Japão e Taiwan. Os cinco últimos
foram Omã, Marrocos, Honduras, África do Sul e Gana. No ranking
elaborado de 2012, o Brasil estava na 58.ª colocação - ou seja, perdeu
duas posições. O estudo foi elaborado com dois objetivos. O primeiro foi
oferecer "a países ricos e pobres a possibilidade de comparar a si
mesmos com os líderes mundiais em educação, para descobrir pontos fracos
e fortes e ver os ganhos econômicos a longo prazo gerados pela melhoria
da qualidade da educação". O segundo objetivo é ajudar os governos a
criar condições para que os cidadãos possam adquirir conhecimentos e
habilidades necessárias para encontrar trabalho e assegurar qualidade de
vida.
O levantamento avaliou o desempenho de alunos de 15 anos em testes de
ciências e de matemática. Ele mostra que, apesar de o País ter
universalizado o acesso ao ensino fundamental, as taxas de evasão
escolar permanecem altas. Também revela que a qualidade do ensino
oferecido pela rede pública é insuficiente para que o Brasil se aproxime
das economias mais competitivas. E reconhece que a formação dos
estudantes tem ficado muito abaixo do necessário a um país cujo maior
desafio é adotar novas tecnologias, modernizar a economia e conquistar
mais espaço nos mercados internacionais. "Apesar de praticamente todas
as crianças entre 7 e 14 anos de idade ingressarem nas escolas no começo
do ano, nem todas continuam até o final. Elas abandonam as escolas
porque o currículo escolar não é atrativo, porque precisam trabalhar ou
por ter dificuldade em acompanhar as aulas", diz o relatório.
Por ironia, o levantamento foi divulgado menos de cinco meses depois de a
presidente Dilma Rousseff ter anunciado que a educação seria a
prioridade do governo e que o lema de seu mandato seria "Brasil, Pátria
Educadora". De lá para cá, ela já nomeou dois ministros da Educação - um
político profissional, que só ficou dois meses e meio no cargo, e um
conhecido professor de filosofia sem experiência em administração
pública. Mostrando inabilidade política, Dilma também atribuiu à
Secretaria de Assuntos Estratégicos a tarefa de elaborar um plano para a
"Pátria Educadora", colocando a pasta em rota de colisão com o
Ministério da Educação.
Além disso, todos os ciclos de ensino estão enfrentando turbulências.
Nos Estados, por exemplo, os professores da rede pública de ensino
fundamental e médio reivindicam reajustes salariais, mas se recusam a
aceitar reformas educacionais que condicionem os aumentos à fixação de
metas e avaliações de produtividade. No ensino técnico, as verbas para
os cursos gratuitos oferecidos a quem concluiu o ensino médio estão
contingenciadas, o que retardou o início das aulas. O ensino superior
também foi afetado pelas medidas de ajuste fiscal adotadas pelo
Ministério da Fazenda. As universidades federais estão sem verbas para
pagar serviços básicos de limpeza e segurança. As universidades privadas
enfrentam problemas por causa das mudanças nas regras do Fundo de
Financiamento Estudantil. E os cursos de pós-graduação estão sem
recursos para dar continuidade a pesquisas em andamento.
Os problemas estruturais da educação brasileira persistem e a área
continua carecendo de ações integradas, como avaliação de resultados,
metas e remuneração atraente. Nos mandatos de Lula e de Dilma, sobrou
marketing eleiçoeiro, mas faltaram planejamento e gestão eficiente. E é
isso que o relatório da OCDE revela.
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