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21:58
ANDRADEJRJOR
EDITORIAL O ESTADÃO

Apresentada como a prova
cabal do renascimento do PT e de sua “volta às origens”, a proibição
imposta em abril pelo Diretório Nacional do partido ao recebimento de
doações eleitorais de empresas não era para valer: passado menos de um
mês daquele momentoso anúncio, noticia-se que diretórios estaduais
petistas continuam a passar o chapéu entre pessoas jurídicas.
Não
é que alguém tenha se iludido com mais um lance de marketing de um
partido que se transformou em uma caricatura de si mesmo. Mas espanta a
rapidez com que os embustes petistas vêm perdendo o viço, revelando sua
verdadeira natureza.
Reportagem do jornal Valor informa que o
diretório do PT da Bahia, por exemplo, pretende promover uma série de
eventos, entre os quais dois jantares com empresários, ainda neste mês. O
objetivo é conseguir dinheiro para quitar dívidas da campanha de Rui
Costa ao governo do Estado no ano passado. O total chega a R$ 13
milhões, dos quais apenas R$ 500 mil foram pagos.
O presidente do
diretório, Everaldo Anunciação, muniu-se de um argumento muito justo
para ignorar a determinação da cúpula petista: a dívida tem de ser paga.
Ele falou em “compromisso moral” de resolver o problema, “buscando
contribuições dentro da lei”. Para Anunciação, a questão é simples: “Não
podemos trazer prejuízo aos credores, que nos ajudaram nas eleições”.
Situação
semelhante se observa no diretório do Ceará, que tem de lidar com uma
dívida de cerca de R$ 6 milhões, remanescente da eleição de 2014, e no
diretório de Mato Grosso, cujos débitos somam R$ 2,6 milhões. Em todos
esses casos, a interpretação que os dirigentes petistas fazem da
resolução do Diretório Nacional é a mesma: o veto a doações de empresas
só vale para dívidas futuras, e não para as passadas. Já o Diretório
Nacional, por meio de nota, explicou que os escritórios regionais “podem
continuar a receber doações empresariais” até a realização do Congresso
do PT, em junho.
Nada disso está na resolução de abril,
concebida com o único objetivo de criar um factoide. Mas a realidade é
bem mais árida que a ficção petista. Segundo o diretório baiano, é
improvável que a mera arrecadação de recursos entre os militantes do PT,
por mais bem-sucedida que seja, baste para cobrir o rombo do partido –
ainda mais quando essas dívidas de campanha superam R$ 55 milhões, como
no caso do PT de São Paulo. “Acredito na força da militância, mas não
podemos ter hipocrisia nem ingenuidade para falar de um valor tão alto”,
disse Anunciação.
“Hipocrisia” é, pois, a palavra adequada para
definir a atual posição do PT. Justamente no momento em que seu partido
aparece como protagonista do petrolão, depois de ter sido igualmente a
estrela do mensalão, os petistas defendem o fim de doações por parte de
empresas.
O escândalo do petrolão tem como centro o financiamento
de partidos com dinheiro de grandes empreiteiras. O caso gerou enormes
prejuízos financeiros e de imagem para essas companhias. Assim, é
natural que tenha havido uma retração no fluxo de dinheiro para
partidos.
Como a fonte está para secar, em razão dos escândalos
que protagoniza, o PT quer posar agora de campeão da moralidade,
anunciando que não aceitará mais os recursos de empresas – e sugerindo
que os partidos que não fizerem o mesmo estarão sendo coniventes com a
corrupção.
A malandragem petista corrompe um debate muito
importante para o País. O financiamento de campanhas eleitorais por
parte de empresas distorce o sentido da representação democrática – pois
empresas não votam. Empresas fazem negócios. A doação de pessoas
jurídicas resulta em um poder econômico impossível de ser equiparado
pelo cidadão comum.
Há, portanto, bons motivos para abraçar essa
causa, mas o PT dela se aproveita com fins oportunistas. “O partido
revitalizará a contribuição voluntária, individual dos filiados,
filiadas, simpatizantes e amigos”, diz a tal resolução do Diretório
Nacional. Como é óbvio que apenas esses poucos recursos serão
insuficientes para bancar a imensa máquina eleitoral em que se
transformou o PT, a resolução não vale o papel em que foi escrita.
EXTRAÍDADEAVARANDABLOGSPOT
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