skip to main |
skip to sidebar
07:16
ANDRADEJRJOR
EDITORIAL O ESTADÃO

Em mais um discurso
cheio de som e fúria, a presidente Dilma Rousseff prometeu manter dois
erros muito custosos da política do petróleo - a exigência de conteúdo
nacional nos insumos e equipamentos e a participação da Petrobrás em
todas as concessões. Os fãs da presidente podem, portanto, ficar
sossegados, pois assim ela parece demonstrar coerência com o que
prometeu na campanha pela reeleição. Dilma só descumpriu promessas
eleitorais, aceitando um programa de ajuste das contas públicas, por
incontornável necessidade. Mas nunca reconheceu a péssima gestão
financeira de seu governo e continua atribuindo os males do Brasil a
fatores externos. Com a mesma coerência perversa, insiste no equívoco de
sobrecarregar a Petrobrás, dificultando o cumprimento de suas missões
essenciais como empresa petrolífera e como instrumento da política
energética.
Para começar, a estatal nem tem respeitado os índices
de nacionalização impostos por lei, como admitiu seu novo presidente,
Aldemir Bendine, em depoimento no Senado no fim de abril. Membros da
antiga diretoria já haviam reconhecido esse fato, mas o governo jamais
cuidou da questão com pragmatismo. Os limites da capacidade técnica e
operacional dos fornecedores são só uma parte do problema. Também seria
preciso dar atenção aos custos, sempre importantes e ainda mais no caso
de uma empresa envolvida na complexa e caríssima exploração do pré-sal.
Todo gasto além do necessário pode atrapalhar o plano de investimentos
na verdadeira função estratégica da Petrobrás.
A estatal foi
convertida em instrumento da política industrial por iniciativa do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Isso beneficiou alguns grupos
empresariais, mas tem atrapalhado, claramente, a atividade essencial de
uma petroleira.
Essa política incluiu a preferência a estaleiros
nacionais na compra de navios-tanque e de sondas. Nunca se deveria
esquecer a história do navio João Cândido, batizado por Lula e Dilma em
maio de 2010 e recolhido imediatamente ao estaleiro, por incapacidade
para navegar. O barco só foi para o mar dois anos mais tarde, depois de
reparos demorados e custosos. A presidente Dilma Rousseff talvez tivesse
na memória esse episódio, quando se referiu, no discurso de
quinta-feira, aos problemas encontrados quando um país se dispõe a ser
"pioneiro em uma indústria". Mas seria uma bobagem enorme e grotesca
falar do Brasil como pioneiro na indústria naval, em 2010 ou agora. Foi
temerário comprometer dinheiro público na Sete Brasil, criada para
produzir sondas, hoje atolada em dívidas e incapaz de atender às
encomendas.
Mas a mãe de todos os equívocos, no caso do conteúdo
nacional, foi a confusão entre os objetivos da Petrobrás, com uma
complicadíssima agenda de exploração, e as metas de uma política
industrial. Foi um caso exemplar de incompetência administrativa. Além
de atrapalhar a Petrobrás, também prejudicada pelo controle de preços, o
governo foi incapaz de abrir uma nova etapa de desenvolvimento
industrial, como prova a estagnação do setor, sem condições de competir e
atolado em crise.
Da mesma forma, nada pode justificar a
obrigação da Petrobrás de participar de todas as concessões. Não há
dinheiro para isso. Esse dado é amplamente conhecido, mas a presidente
Dilma Rousseff ainda parece desconhecê-lo.
Sem se comprometer
muito, o presidente Aldemir Bendine admitiu a incapacidade da empresa de
participar de licitações pelo menos neste ano. Ele seria mais
informativo se admitisse a incompatibilidade entre essa obrigação, os
interesses da estatal e os objetivos nacionais na área energética. Com
mais clareza, o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, indicou em
depoimento no Senado, em abril, possíveis mudanças na política de
conteúdo nacional e no papel da Petrobrás como operadora no pré-sal.
A
presidente, no entanto, mais uma vez se mostrou impermeável ao bom
senso. Mas, pensando bem, ninguém deveria admirar-se. No mesmo discurso,
ela explicou por que a Petrobrás foi premiada em recente evento
internacional nos Estados Unidos: por "ter sido capaz de extrair
petróleo de uma profundidade extremamente elevada". Profundidade
elevada? Talvez no Lago Titicaca.
EXTRAÍDADEAVARANDABLOGSPOT
0 comments:
Postar um comentário