Opinião Valentina de Botas:
O que espero a esta altura de tudo é a exatidão das coisas de imprecisão suave, fundadas na sinceridade como um modo de estar no mundo. Fazer da mão estendida, um auxílio; da promessa, um acontecer; do sonho, uma florada; da verdade, uma confissão. Mas eis que o jeca, profanando a natureza de uma confissão, mente até quando confessa: foi obrigado a lidar com coisas imorais? No Brasil só se governa pela vigarice?
Discordo de Lula e de uma linha do texto sensacional do meu querido Oliver: o que obrigou o jeca a copular incessantemente com os políticos mais imorais e primitivos foi a vigarice de se reproduzir no poder, e não a danação imaginária desta terra tão garrida pretensamente condenada no parto à corrupção eterna. Ora, outra vez a narrativa equivalendo sujeitos diferentes em circunstâncias iguais. Então só é possível ser jornalista se cavalgado pelo JEG, ser comentarista se miliciano, ser médico se como Abdelmassih, empreiteiro se como os do petrolão, juiz como os toffolis, tesoureiro como os vaccaris, herois como os mensaleiros, professor como o Quaquá?
Chega disso, basta. O jeca, sim, sempre se sentindo livre para delinquir, é o mesmo que fechava acordos com o patronato regados a uísque para, esperando o tempo justo da dissimulação, apresentá-los como conquista a grevistas numa autoconsagração com a alma encharcada de pinga e oportunismo. Forjado na truculência sindical pelega, como presidente não hesitou em se obrigar a gozosas escolhas: fora o resto, moeu um caseirofrancenildo, instalou um mensalão num poder da república e um poste noutro, descobriu a meiguice de capitalistas selvagens, pendurou uma rosemarynoronha no nosso bolso e erigiu o petrolão.
Não foi a corrupção que o piorou, mas ele que a agigantou. Decidido a eternizar o presente no arcaico império lulopetista, obrigou-se a tornar nossa cidadania ainda mais rala, nossa democracia quase um blefe, nossa política um fósforo riscado numa poça de urina em algum beco sórdido em que transformou a grande pátria desimportante. Saída? Há, mas é para dentro, pois contamos apenas conosco: com nossas instituições imperfeitas, nossos políticos menos ruins do que os deles, nossa resistência democrática e nossa indignação.
A perniciosa estratégia da súcia para restringir os horizontes a si mesma no discurso vagabundo de que “no Brasil é assim mesmo” parece fazer brotar do chão a certeza acre de que ela veio para ficar. Mas não tenho jeito, confesso: meu coração imperfeito abriga uma divindade toda perfeita – a esperança, confirmada por trincas na seita e no sacerdote que se estilhaçam. Aos sonhadores que queremos o peito repleto de tudo o que possamos abraçar, elas avisam que não é tarde demais para a florada dos sonhos.
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