Rui
Fabiano
O abismo
entre os dois brasis é profundo e nenhum partido diagnosticou o problema. A
queda do PT não o resolve, mas abre caminho para que uma interlocução se
estabeleça.
O Brasil,
como salta aos olhos, é um país dividido. E a divisão não é apenas partidária,
que é sua manifestação mais superficial e circunstancial, já que o brasileiro
não crê em partidos.
A mais
densa manifestação divisionista se constata entre sua elite universitária,
politicamente correta – uns dez por cento da população - e o restante da
sociedade, da classe média para baixo.
As
pesquisas tangenciam o problema. O chamado Brasil profundo é religioso,
conservador em seus costumes e valores e com uma visão realista das questões do
cotidiano (maioridade penal, liberação das drogas e do aborto, desarmamento,
entre outras) - o avesso do que propugna o Brasil politicamente correto.
Este – e
aí incluem-se os formadores de opinião, estudantes e professores
universitários, profissionais liberais e a militância de esquerda (centrais
sindicais, ONGs, movimentos sociais) – fala outro idioma, embora se arvore a
falar por todos.
Não se
trata de uma tese, mas de fatos. O Brasil profundo, segundo pesquisas diversas,
rejeita, por exemplo, o casamento gay. Por essa razão, nenhuma proposta nesse
sentido foi submetida ao Congresso ou mesmo, via plebiscito, ao povo.
Buscam-se
então vias alternativas. Assim, a autorização veio pelo Supremo Tribunal
Federal, respondendo a consulta, contra a letra explícita da Constituição. A
união civil estável sob a proteção do Estado, objeto da consulta, é tratada no
parágrafo 3º, do artigo 226, nos seguintes termos: “Para efeito da proteção do
Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade
familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento”.
Apesar
disso, o STF decidiu legislar: estendeu-a aos homossexuais. Na sequência, o
Conselho Nacional de Justiça, sem qualquer base legal, autorizou os cartórios a
realizar casamentos – e não apenas união civil estável sob a proteção do estado
-, indo além da transgressão anterior.
Não se
trata aqui de discutir o mérito da iniciativa, mas como foi obtida: à revelia
da maioria, sem consultá-la – e mesmo já sabendo o que esta expressara, por
meio de diversas pesquisas.
Idem o
desarmamento. Em plebiscito de outubro de 2005, dois terços da população se
manifestaram contrários à proibição da venda de armas de fogo – mas e daí? O
Brasil politicamente correto, que se diz democrata, afronta a maioria e busca
expedientes por meio de portarias administrativas, que contrariam a vontade
explícita da maioria. O Congresso é também ignorado.
O mesmo Brasil
real é contra a legalização do aborto, considerando que as exceções já
acolhidas em lei – risco de vida da mãe, estupro e feto anencefálico – são
suficientes. Mas a agenda politicamente correta insiste em ampliá-lo.
O deputado Jean Wyllys, que simboliza uma ala do politicamente correto, acha que, em questões assim, o povo não deve ser consultado, pois seguramente “votaria errado”. Ou seja, sente-se tutor da população em questões comportamentais.
O deputado Jean Wyllys, que simboliza uma ala do politicamente correto, acha que, em questões assim, o povo não deve ser consultado, pois seguramente “votaria errado”. Ou seja, sente-se tutor da população em questões comportamentais.
Há uma
determinação, de índole positivista, de impor às massas ignaras um novo país,
moldado por valores que não compartilha e que não é chamado a debater.
A chave
dessa divisão está no sistema educativo. Há décadas – e isso remonta ao tempo
do regime militar -, a agenda politicamente correta, que contesta valores da
formação cristã tradicional, que moldou o pensamento da população brasileira
desde a colonização, vem sendo imposta nos colégios e universidades, sobretudo
no meio urbano. Há mais de uma geração já submetida a esse software
educacional, que prepara o país para sua total esquerdização, por meio de uma
revolução cultural no melhor estilo gramsciano. E isso gerou dois brasis.
A própria
Igreja Católica submeteu-se a essa polarização. Em 64, posicionou-se contra a
esquerda; hoje, a apoia, via CNBB. Idem a OAB, hoje transformada em célula do
PT. O fenômeno, complexo, é, no entanto, tratado de forma simplista.
O
presidente do PT, Rui Falcão, adverte contra uma “conspiração conservadora”,
que estaria promovendo “o renascimento da direita”, como se por trás da voz das
ruas, que descrê dos partidos e da própria política, estivesse, como proclamou
o sábio Sibá Machado, líder do governo na Câmara, “o braço da CIA e do
imperialismo”. A realidade é outra: o PT aparelhou a sociedade civil
organizada, mas não o Brasil profundo.
Aparelhar
200 milhões e varrer os valores essenciais que moldaram a construção de uma
nação de meio milênio, exige, se é que é possível, mais tempo e melhor
conteúdo.
Xingar de
“fascistas”, “reacionários” e “direitistas” os milhares de manifestantes que
ocupam as ruas – e os milhões que se manifestam de casa -, e que rejeitam a
imposição de uma agenda avessa a seus costumes, é inútil e ridículo.
O abismo
entre os dois brasis é profundo e nenhum partido sequer diagnosticou o
problema. A eventual queda do PT não o resolve, mas, ao menos, abre caminho
para que uma interlocução se estabeleça. É preciso repensar o país real, em vez
de insistir, como os positivistas que há 126 anos proclamaram a república, em
conduzi-lo como um rebanho inepto a um projeto de paraíso que só existe na
cabeça dos que o conceberam.
EXTRAÍDADEDIPLOMATIZZANDO
Rui Fabiano





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