EDITORIAL ESTADÃO
Pode-se governar sem popularidade, mas não se pode governar sem
credibilidade. Essa sábia advertência, feita pelo ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso, deveria ser anotada com muita atenção pela presidente
Dilma Rousseff, caso queira superar a imensa crise em que ela mesma
mergulhou seu governo e que ameaça levar consigo todo o País.
Para angariar a simpatia popular, base do projeto de poder lulopetista, a
administração de Dilma passou o primeiro mandato recorrendo
sistematicamente à malandragem fiscal, para esconder a gastança
irracional, e ao populismo barato, para pescar votos de eleitores
incautos. No entanto, o resultado desse esforço, todos podem ver, tem
sido o exato oposto. Temos um governo fraco, impopular e, o pior de
tudo, com escassa credibilidade, que só se mantém graças a um ou dois
ministros que Dilma teve de engolir e que a duras penas estão tentando
corrigir os inúmeros erros econômicos de sua lavra.
Em sua declaração, feita na última terça-feira ao receber um prêmio da
Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, em Nova York, FHC não citou
nomes ou partidos, mas lançou uma dura crítica à irresponsabilidade
fiscal do atual governo, fazendo uma clara defesa do bom uso do dinheiro
público como condição incontornável da recuperação da confiança no
Brasil.
No mesmo dia, por coincidência, o Fundo Monetário Internacional (FMI)
divulgou um estudo sobre o Brasil em que comenta a “erosão da
credibilidade das diretrizes econômicas, em razão da persistente
deterioração dos resultados fiscais e da inflação acima da meta”. O
desafio da atual equipe econômica, diz o FMI, é justamente, em primeiro
lugar, “restaurar a credibilidade e reforçar a confiança nas decisões
econômicas”.
Os agentes econômicos dos quais depende a recuperação brasileira,
portanto, ainda esperam sinais mais claros de que podem confiar nos
compromissos de um governo que se notabilizou por prometer o paraíso e
entregar, na melhor das hipóteses, o purgatório. O resultado imediato
disso é a crescente dificuldade de Dilma para mobilizar o Congresso e a
opinião pública em torno do necessário ajuste nas contas públicas,
especialmente porque o discurso de responsabilidade fiscal não fica bem
quando pronunciado por uma governante que passou anos a demonizar
aqueles que defendem a prudência na gestão econômica. Como salientou
FHC, querer o rigor dos orçamentos “passou a ser visto como coisa
reacionária” graças ao lulopetismo.
FHC tratou de lembrar que o controle firme das contas públicas é a base
sobre a qual se assentou o controle da inflação e, portanto, a
estabilidade da economia brasileira. As privatizações, as reformas e o
enxugamento da máquina do Estado, promovidos no início dos anos 90, eram
a precondição para tirar o Brasil do isolamento e permitir que o País
se associasse ao mercado global. “A luta contra a inflação era mais do
que um objetivo isolado. Era uma tentativa de colocar o Brasil em
compasso com o mundo contemporâneo”, disse FHC, acrescentando que o
desprezo pelo setor privado é um “arcaísmo” que se deve não a alguma
ideologia progressista, mas sim a “atraso cultural”.
Esse arcaísmo define a natureza do lulopetismo. Na primeira oportunidade
que teve, como lembrou FHC, o governo do PT deu “marcha à ré” nos
avanços a duras penas conquistados, ao transformar em política
permanente o que era para ser apenas um conjunto de medidas temporárias
para enfrentar a grande crise mundial de 2008 e 2009. “Paulatinamente
fomos voltando à expansão sem freios do setor estatal, ao descaso com as
contas públicas, aos projetos megalômanos que já haviam caracterizado
alguns governos do passado”, disse o ex-presidente.
No intervalo de alguns poucos anos, porém, “o castelo de cartas
desfez-se ao sopro da realidade”. E, para FHC, todo o esforço das
gerações passadas para construir a credibilidade do País, base do
progresso econômico, parece agora “desfazer-se no ar”. Restaurar a
disciplina nos gastos públicos não é, portanto, uma questão de escolha, e
sim um imperativo, para preservar conquistas que não são deste ou
daquele partido ou governante, mas do País.
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