RAQUEL LANDIM FOLHA DE SÃO PAULO
As atas do conselho de administração da Petrobras nem de longe
demonstram a batalha em que se transformaram as reuniões do comando da
maior empresa do país depois do início das investigações da Operação
Lava Jato.
Essa colunista leu nesta quinta-feira (7) a ata da reunião do dia 27 de
janeiro deste ano e ouviu o áudio do mesmo encontro, que durou mais de
oito horas. A diferença é gritante, a despeito da formalidade que requer
uma ata e da naturalidade de uma gravação de áudio.
Naquele dia, o encontro culminou com a decisão de informar ao mercado
sobre um cálculo feito a pedido da própria empresa que demonstrava uma
enorme desvalorização do seu patrimônio por conta da corrupção e da má
gestão. As perdas chegavam a mais de R$ 88 bilhões.
Posteriormente o cálculo terminou descartado e a Petrobras acabou
reconhecendo uma desvalorização de quase R$ 45 bilhões em seus ativos.
Em contabilidade, dependendo das premissas adotadas, o chamado "valor
justo" de um ativo pode variar muito. Mas, na época da realização
daquele encontro, o cálculo em questão era a melhor diretriz que a
Petrobras possuía e divulgá-lo era a coisa certa a fazer.
Pela ata do encontro, Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda e então
presidente do conselho, apenas "pontuou seu entendimento do valor justo
dos ativos mostrar-se inadequado". No áudio, porém, ele foi muito além e
tentou impedir que o número fosse divulgado.
Mantega disse que o cálculo era uma "temeridade", prejudicaria a
companhia, e que a "empresa não divulgava outros estudos técnicos". E
bateu de frente com Graça Foster, presidente da empresa. Ela, que sempre
foi aliada do governo, dessa vez estava com medo de ser punida pela
CVM.
Na realidade, o governo estava muito incomodado em admitir publicamente
pela primeira vez o tamanho do descalabro em que a gestão da Petrobras
se transformou nos últimos anos. O desconforto foi tão grande que Graça
perdeu o cargo dias depois, demitida pela presidente Dilma Rousseff.
A Petrobras entregou à CPI do Congresso as atas das reuniões de 2005
para cá, mas os áudios apenas dos encontros realizados a partir de
setembro do ano passado. A empresa não é obrigada por lei a gravar suas
reuniões em áudio, mas, se o mesmo padrão se repete em todas as atas,
informações importantes se perderam.
Informações que poderiam ajudar a esclarecer a participação da própria
presidente Dilma, que presidiu o conselho da Petrobras quando era
ministra em episódios polêmicos como a compra da refinaria de Pasadena e
a explosão de custos das refinarias de Abreu e Lima e do Comperj.
EXTRAÍDADOBLOGROTA2014





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