editorial do Estadão
A presidente Dilma Rousseff decidiu mais uma vez desrespeitar os
brasileiros ao lhes dirigir a palavra. Tanto no acanhado pronunciamento
que fez a propósito do Dia do Trabalho - pela internet, para fugir de
mais um "panelaço" - como na campanha publicitária para explicar o
ajuste fiscal, a petista reafirmou as patranhas que seus marqueteiros
inventaram para justificar o descalabro de sua administração.
A mensagem do Dia do Trabalho enfatizou que "a valorização do salário
mínimo é uma das maiores conquistas" dos governos petistas. Segundo
Dilma, o "aumento do poder de compra do trabalhador" está assegurado
"por lei" até 2019. Fiel ao estilo "nunca antes", a presidente afirmou
que tal política - "do meu governo", como frisou - fez o salário mínimo
crescer 14,8% acima da inflação em seu primeiro mandato, o que teria
beneficiado "45 milhões de trabalhadores e aposentados".
O discurso de Dilma, no entanto, omitiu alguns detalhes muito
importantes. Como o reajuste do salário mínimo depende da variação do
crescimento do Produto Interno Bruto nos dois anos anteriores, conforme
manda a regra atualmente em vigor, a tendência para os próximos anos, em
que a expansão do País será esquálida, é que não haja aumento real
significativo. Simplesmente não há lei nem voluntarismo que modifiquem
essa conjuntura.
Ademais, o crescimento real do salário mínimo no primeiro mandato de
Dilma, citado com tanto orgulho pela presidente, foi inferior ao
observado nos dois mandatos de Lula (38,3% no primeiro e 17,4% no
segundo) e no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso (30,5%). O
economista Mansueto Almeida calcula que o salário mínimo no segundo
mandato de Dilma, mantidas as projeções de crescimento, deverá ter
reajuste real inferior a 4%, menor do que o verificado no segundo
mandato de FHC (7,3%), em meio a uma grave crise econômica
internacional.
Tem-se, portanto, um embuste na fria acepção da palavra: Dilma quer
transformar má notícia em boa. No mesmo pronunciamento, tal fórmula foi
usada para dizer também que "o trabalhador terá seu salário preservado e
não irá pagar um imposto maior" porque a presidente enviou ao Congresso
a correção da Tabela do Imposto de Renda. Ora, como a presidente
certamente sabe, mas finge não saber, a correção é insuficiente para
compensar a inflação e o reajuste dos salários, fazendo com que mais
trabalhadores tenham de pagar imposto.
Já na peça publicitária do governo federal para explicar as medidas de
ajuste fiscal, empilham-se imposturas as mais diversas, algumas já
bastante conhecidas. Primeiro, ao falar da necessidade de aperto, diz
que o mundo vive uma crise "desde 2008" - embora a maior parte dos
países, inclusive os emergentes como o Brasil, já tenha saído dela.
Depois, afirma que "as tarifas de energia tiveram de ser reajustadas em
função da seca", embora todos saibam que a explosão tarifária nas contas
de luz é resultado direto de uma política inepta inventada por Dilma.
Se a presidente quer realmente recuperar um pouco da credibilidade
perdida, deve parar de ofender a inteligência dos contribuintes. No
entanto, premida pela necessidade de justificar-se ante tanto descalabro
em sua administração, Dilma tem persistido no discurso mendaz. Não se
esperava dela maior virtude que a existente no mundo da política. Mas
esperava-se o mínimo: que ela, por ter deveres muito acima de interesses
partidários e eleitoreiros, uma vez reeleita, reconhecesse seus erros
e, principalmente, dissesse a verdade ao País neste momento de crise
profunda. Mas não. Repete sem corar as mentiras que lhe possibilitaram a
reeleição.
Assim, que não venham Dilma e seus partidários reclamar dos que batem
panela ao ouvi-la falar. Esse barulho é a trilha sonora adequada para um
governo que, mal começou, parece já estar no fim. Para que as caçarolas
silenciem, a presidente deve, em primeiro lugar, assumir suas
responsabilidades. Respeitando, será respeitada.
extraídadoblogrota2014





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