skip to main |
skip to sidebar
21:13
ANDRADEJRJOR
EUGÊNIO BUCCI REVISTA ÉPOCA
O país da publicidade petista é esquisito, híbrido, torcido e distorcido. Por exemplo: não tem presidente da República

Na terça-feira passada,
às 8 e meia da noite, quando o Partido dos Trabalhadores ocupou as redes
de TV com seu programa de propaganda política, uma pergunta ficou no
ar: que país é esse que aparece no vídeo do PT?
Claro, é um país
que avança no avanço, uma país avançadíssimo. Na tela eletrônica, a moça
bonita de sotaque carioca anuncia: "Finalmente vivemos num país onde as
mais justas reivindicações da população passaram a ser as mesmas das
democracias mais sólidas do mundo". Ou seja, no proselitismo petista, o
Brasil já é de "Primeiro Mundo" no quesito "reivindicações da
população". O Brasil pode ficar feliz e satisfeito: se suas soluções
ainda não são de "Primeiro Mundo", os seus problemas já são.
Quer
dizer que o Brasil ficou igual à França? Quer dizer que no Canadá a
polícia cai de pau (e de bala de borracha) em cima de professores que
protestam na rua? E os salários dos professores no Brasil são
equiparáveis aos dos professores belgas? Então agora, na Noruega, os
cidadãos estão preocupados com uma Polícia Militar que mata milhares de
jovens negros desarmados todos os anos? Os londrinos enfrentam problemas
de filas em hospitais? Os alemães acham que a redução da maioridade
penal vai resolver o descalabro da segurança pública?
O país da
publicidade petista é esquisito, híbrido, torcido e distorcido . Em
certos ângulos, é fácil reconhecê-lo. Parece o país de verdade. Em
outros enquadramentos, é a própria Terra do Nunca. Por exemplo: o Brasil
do PT não tem presidente da República. O filme do PT consegue a proeza
inaudita de ser um filme governista e, ao mesmo tempo, falar de um país
que não é governado por ninguém (embora, claro, esteja sempre "avançando
na direção "correta"). Em seus dez minutos de duração, o programa se
dedica a esconder ninguém menos que a chefe de Estado. Chega ao cúmulo
de defender mais espaço para a mulher na política sem tocar no nome de
Dilma Rousseff.
No lugar de Dilma, quem aparece em close é o
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O curioso é que Lula não fala
como defensor do governo, mas como um líder sindicalista de oposição. Em
tom ameaçador, afirma que a mudança da lei que abre espaço para a
terceirização de mão de obra colocará o Brasil no mesmo nível em que
estava no início do século XX, quando não havia 13-salário. Quer dizer: o
Brasil, que não tem presidente da República, só tem um líder, mas de
oposição, e o nome desse líder é Lula.
A propaganda petista segue
em guerra contra os moinhos do passado. É contra o passado que Lula se
insurge. A partir daí, os contrastes entre o hoje um "hoje"
publicitário) e o ontem (um "ontem" acusatório, o ontem que é culpa
"deles") atingem o clímax. A dona de casa orgulhosa de sua nova sala
sorri para as câmeras. O jovem que foi à universidade graças ao PROUNI
diz que agora pode sonhar. As meias verdades se põem a serviço das meias
mentiras (ou mesmo das mentiras inteiras). Por exemplo: é verdade que,
nos governos de Lula, o Brasil melhorou sua distribuição de renda, e
isso o filme mostra, mas é verdade, também, que a gestão da política
econômica não foi nada bem no governo Dilma, e isso o filme esconde {a
ponto de ter de esconder a própria Dilma).
Outra coisa é que, ao
que tudo indica, parece que andaram roubando um pouquinho nos governos
do PT, mas, quanto a isso, o filme tem outra interpretação, insiste que o
PT é o campeão no combate à corrupção. O jovem apresentador faz cara de
seríssimo e dispara: "Outra virada histórica do Brasil, tem sido o
combate contra a corrupção. E, por mais que alguns setores da imprensa
omitam, se você buscar a verdade, vai descobrir que o PT também liderou
algumas iniciativas contra a impunidade" Em seguida, uma voz em off
garante que antes dos governos do PT o Ministério Público e a Polícia
Federal não tinham autonomia para trabalhar, mas agora é diferente.
Conclusão:
se hoje há ladrões de dinheiro público batendo ponto na cadeia,
agradeça ao PT. Alguns são filiados ao PT? Não ligue. Se forem
condenados, serão expulsos, garante a propaganda. Aí você pergunta: mas
se vão expulsar os que vierem a ser condenados por crime de corrupção,
por que não expulsaram os que já foram condenados? O PT não responde,
pois não escuta, assim como não escutou os panelaços durante a exibição
de seu programa. Empenhado em inventar seu país publicitário, o partido
parece acreditar que será capaz de fabricar, com sua propaganda, um povo
crédulo, medroso e obediente. Na TV do PT, não é o poder que emana do
povo, mas o povo é quem há de emanar do poder.
EXTRAÍDADEAVARANDABLOGSPOT
0 comments:
Postar um comentário