DEMÉTRIO MAGNOLI O GLOBO
A subordinação dos princípios morais aos alinhamentos ideológicos tem implicações políticas
“Creio que existe um interesse em ser preso na Venezuela. É uma técnica,
é a forma de luta da oposição. Induzem o governo a ultrapassar o
limite. Criam uma notável contradição internacional — e esses bobos
entram. Eu disse a eles. É um erro.” O autor da frase é José “Pepe”
Mujica, ex-presidente uruguaio e antigo guerrilheiro dos tupamaros. Na
opinião dele, as ditaduras de direita surgem do intrínseco autoritarismo
da direita — e as de esquerda também. A visita de Lilian Tintori e
Mitzy Capriles ao Brasil evidencia, uma vez mais, o significado desse
tipo de duplicidade moral.
Mujica foi preso quatro vezes entre 1970 e 1972, antes de experimentar
13 anos seguidos de encarceramento, durante a ditadura uruguaia. As
ações de guerrilha urbana da qual participou aconteceram no governo de
Pacheco Areco, que suspendia as garantias constitucionais e preparava a
senda para o golpe cívico-militar deflagrado por seu sucessor, Juan
Maria Bordaberry, em 1973. Leopoldo López e Antonio Ledezma, maridos de
Tintori e Capriles, também foram encarcerados por um regime em trânsito
rumo à ditadura.
Contudo, o paralelo não se completa: na Venezuela, a oposição não recorre à violência.
Quando se recusa a receber Tintori e Capriles, Dilma Rousseff está
dizendo que os direitos humanos e as liberdades políticas são valores
negligenciáveis para o Brasil.
As acusações que pesavam contra Mujica eram ilegítimas, pois formuladas
por um governo que atentava contra as liberdades públicas — mas eram
verdadeiras. Os tupamaros, de fato, empenhavam-se na derrubada do
governo por meio da força. Os mais de 80 opositores venezuelanos presos,
pelo contrário, conclamaram o povo a se manifestar pacificamente pela
mudança de governo. Eles estão na cadeia sob acusações fantasiosas,
quase oníricas, denunciadas pela Anistia Internacional, pelo Human
Rights Watch e pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos
Humanos. Nem mesmo Mujica, um personagem incapaz de distinguir algozes
de vítimas, contesta a natureza arbitrária dos encarceramentos. Virando
as costas para as visitantes, Dilma rebaixa-se ao estatuto de cúmplice
dos carcereiros.
Eleições são um pressuposto da democracia, mas não se confundem com ela.
Limitando os direitos da oposição, Pacheco Areco e Bordaberry,
presidentes eleitos, depredavam a democracia uruguaia. Na Venezuela,
Hugo Chávez e seu sucessor, Nicolás Maduro, subordinaram o Judiciário à
vontade do Executivo, abolindo na prática o sistema de separação de
poderes. Mujica imputa aos oposicionistas a responsabilidade pelos
encarceramentos deles mesmos, que se sustenta, exclusivamente, sobre a
destruição da independência dos tribunais. O governo brasileiro
escuda-se no princípio da soberania venezuelana para silenciar diante
das prisões arbitrárias, reproduzindo o argumento clássico de tantos
regimes de força confrontados com pressões internacionais. Como Mujica,
Dilma só se opõe às ditaduras “erradas” — ou seja, aquelas com as quais
não compartilha um credo ideológico. A presidente nos envergonha a
todos.
“O principal é que não nos fossilizemos”, alertou Mujica antes de
assumir a Presidência. De fato, no poder, o ex-tupamaro revelou ter
aprendido muitas coisas importantes, mas não uma, que é decisiva: o
imperativo de separar argumentos políticos de argumentos morais. A
distinção foi clarificada pelo filósofo polonês Leszek Kolakowski, em
1974, numa polêmica com o historiador Edward Thompson. Face à
insistência do interlocutor em suspender o julgamento sobre a URSS,
Kolakowski ensinou que é inútil condenar a tortura em bases políticas
(“porque na maioria dos casos ela é perfeitamente eficiente e os
torturadores obtêm aquilo que querem”), restando apenas a condenação
moral, “e, então necessariamente, em todos os lugares do mesmo modo: na
Cuba de Batista e na Cuba de Castro, no Vietnã do Norte e no Vietnã do
Sul”. Mujica critica o encarceramento de opositores na Venezuela como um
erro político, não como a violação de um princípio inegociável. Ele é
um fóssil ideológico, tanto quanto Dilma.
A subordinação dos princípios morais aos alinhamentos ideológicos tem
implicações políticas. Na América Latina, o presidente colombiano e os
parlamentos da Colômbia e do Chile somaram-se à ONU pedindo a libertação
imediata de López e Ledezma. As prisões na Venezuela foram alvo de uma
crítica direta do presidente uruguaio Tabaré Vázquez, bem como dos
ex-presidentes FH, do Brasil, e Ricardo Lagos, do Chile. Em entrevista à
CNN, Dilma só conseguiu murmurar uma oblíqua contrariedade, logo
esterilizada pela referência ritual à soberania venezuelana. Por essa
via, o Brasil do lulopetismo encerra-se na caverna dos países aliados ao
chavismo, habitada por argentinos, bolivianos, equatorianos, cubanos e
nicaraguenses.
Da guerrilha urbana ao calabouço, e daí à Presidência, Dilma compartilha
uma trajetória com Mujica. Alçando-os ao vértice do poder, Brasil e
Uruguai deram saltos civilizatórios, reciclando as intolerâncias
políticas do passado no caldo inclusivo da democracia de massas. Um
pressuposto implícito nessa condenação simbólica das ditaduras é a
crença na plena conversão dos antigos militantes da luta armada aos
valores democráticos.
Deploravelmente, porém, o uruguaio e a brasileira rasgam o contrato de
confiança que assinaram com suas nações. Carentes de uma régua moral,
eles insistem em absolver a a “Cuba de Castro” e o “Vietnã do Norte”,
enquanto condenam a “Cuba de Batista” e o “Vietnã do Sul”.
A visita de Tintori e Capriles oferece uma oportunidade para demonstrar
que, na democracia, a nação fala por cima do governo de turno. Nosso
Congresso tem, hoje, a chance de aprovar uma solicitação formal de
libertação dos presos políticos venezuelanos.
Na prática, seria o impeachment de uma política externa sequestrada pelo arcaísmo ideológico.
EXTRAÍDADOBLOGROTA2014





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