Jornalista Andrade Junior

sábado, 9 de maio de 2015

Defesa da cunhada de Vaccari parece uma tremenda armação

Carlos Newton


A defesa de Marice Corrêa Lima, cunhada de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, apresentou à Justiça Federal dois documentos para comprovar que os R$ 240 mil que entraram na conta dela, em 2011, e serviram para a compra de um apartamento no Guarujá, tiveram como origem uma indenização paga pelo partido, seis anos antes.
Um dos documentos apresentados por Marice é uma carta assinada por Vaccari no dia 20 de julho de 2010, em papel timbrado do PT, encaminhada ao advogado Luiz Eduardo Greenhalgh. Na mensagem, sem citar que se tratava de sua cunhada,Vaccari pediu que fosse feito um acerto com Marice,  ex-funcionária do PT, para evitar danos ao partido na Justiça Trabalhista e até no processo eleitoral.
O outro documento da defesa é a cópia de um “Termo de Acordo Indenizatório”, assinado por Marice e pelo advogado e ex-deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh, do dia 25 de fevereiro de 2011. Greenhalgh se diz representante do PT e acerta o pagamento de R$ 240 mil do partido para Marice, a título de “indenização por danos morais e materiais e pela ruptura do contrato trabalhista e de prestação de serviços”, após ela ter seu nome citado nas investigações do mensalão.
DETALHES REVELADORES
Nos dois documentos, alguns detalhes despertam atenção.
1) Vaccari dirige a carta a Greenhalgh e não ao presidente do PT.
2) Ele diz que em dezembro de 2005, “não suportando mais a pressão midiática que se fazia em torno de seu nome”, Marice pediu demissão.
3) Mas a carta de Vaccari mostra que somente 4 anos e seis meses depois de se demitir é que a ex-funcionária resolveu reivindicar indenização.

4) Nota-se, claramente, pela maneira de redigir e expressões empregadas, que o texto de Vaccari foi escrito por um advogado.
O generoso acordo firmado entre Greenghalg e a ex-funcionária também levanta suspeitas.
1) No acordo, quem se compromete a pagar R$ 240 mil à dona Marice é Greenhalgh e não o PT, e o advogado diz que “buscará reembolso posterior junto ao Partido dos Trabalhadores”, vejam quanta generosidade dele.
2) No texto, desnecessariamente e sem citar nenhum laudo médico ou psiquiátrico, o advogado do PT reconhece que “os prejuízos de ordem material, moral, pessoal e familiar perduram até recentemente, inclusive com repercussão em seu estado de saúde, higidez física e mental”.
Quer dizer, Greenghlagh agiu com se fosse advogado de defesa dela e não como representante do partido.
O ACORDO CHEIRA MAL
Não há justificativa para o generoso acordo do PT. O assunto em que ela é citada (uma dívida do PT com a Coteminas de José Alencar) veio à baila na primeira semana de setembro e a funcionária só pediu demissão quatro meses depois, em dezembro. Não houve grande sofrimento de Marice, a ponto de afetar sua “higidez física e mental”, como fica parecendo nesta confissão de culpa do PT, feita por Greenhalgh. É tudo conversa fiada. Na verdade, o nome dela foi citado poucas vezes pela imprensa e sem qualquer acusação a ela.
Para se ter uma ideia do que foi publicado sobre Marice naquela epóca, vamos transcrever o pequeno texto em que é citada, numa ampla matéria reportagem publicada por O Globo dia 7 de setembro de 2005:
O presidente do PT, Ricardo Berzoini (SP), afirmou que não há previsão para o partido pagar a dívida de R$ 11 milhões com a Coteminas. O PT reconheceu que a primeira parcela, no valor de R$ 1 milhão, foi paga pelo ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares com recursos de caixa dois. Ele confirmou que o dinheiro foi encaminhado à Coteminas pela coordenadora administrativa do PT, Marice Lima. Segundo Berzoini, Marice cumpriu ordens de Delúbio e não será demitida:
– Ela cumpria ordens do ex-secretário de Finanças.
MARICE NADA SOFREU
Como se vê, ao contrário do que Vaccari e Greenhalgh escreveram, não houve “pressão midiática” sobre Marice nem graves prejuízos materiais e morais. A internet está aí mesmo para demonstrar esta realidade. São pouquíssimas as reportagens em que há referências a ela e em nenhum momento seu nome é citado de forma desabonadora, pois apenas cumprira ordens do então secretário de Finanças do PT. Justamente por isso, Marice jamais foi acusada e apenas prestou um rápido depoimento como testemunha.
A aparência desse acordo PT/Marice é de que se trata de uma armação, tipo “conta de chegar”, como se dizia antigamente, para justificar a compra de um apartamento por R$ 200 mil, que Marice devolveu um ano depois à incorporadora da obra por R$ 432 mil, vejam que grande negócio imobiliário. A empresa é a OAS – uma das 16 empreiteiras acusadas de cartel e corrupção na Petrobras. Em 2014, o imóvel foi vendido pela OAS por R$ 337 mil, o que evidencia a insustentabilidade do falso negócio.
Além disso, o pagamento da indenização não aparece de forma detalhada na prestação de contas anual do PT.
ORIGEM ILÍCITA
Os procuradores da República e a PF suspeitam que o negócio de compra do imóvel de Marice “serviu para ocultar e dissimular a origem ilícita dos recursos, tratando-se de possível vantagem indevida paga pela OAS a João Vaccari Neto”.
Para constatar a veracidade desse acordo, nem é preciso quebrar o sigilo bancário de Marice. Basta consultar a Receita Federal, através do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e constatar se realmente houve depósito do cheque de 40 mil reais na conta dela, em fevereiro de 2011, e depois, mês a mês, dez depósitos de 10 mil cada, feitos pelo escritório de advocacia de Greenhalgh.
Para a força-tarefa da Lava Jato, há indícios de que o valor possa ter origem ilícita e serviu para ocultar o patrimônio de Vaccari. Além das supostas relações com o esquema de corrupção e propina da Petrobrás, há ainda suspeitas de que o negócio tenha elo com outro escândalo que orbita membros do PT – o caso Bancoop, em que o ex-tesoureiro é réu num rombo de R$ 100 milhões. Mas aí já é outro departamento…





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