por Vinicius Torres Freire folha DE SÃO PAULO
Parece que acabou o dinheiro para financiar imóveis a juros menores,
regulados pelo governo. Isto é, aquele dinheiro que vem dos depósitos da
caderneta de poupança e do FGTS. Pelo menos na Caixa Econômica Federal,
que detém dois terços dos empréstimos imobiliários, acabou ou está por
aí.
Que acabaria, eram favas contadas. Os empréstimos imobiliários com taxas
de no máximo 12% (dinheiro vindo das cadernetas) e muito menos que isso
(vindo do FGTS) dependem, claro, do crescimento das contas de poupança,
principalmente, e do FGTS (em menor escala, embora crescente).
Desde dezembro de 2014, o total de depósitos da poupança decresce, em
termos reais (descontada a inflação, na comparação com o mesmo mês do
ano anterior).
No entanto, o estoque de empréstimos continuou a crescer. Desde 2007,
quando sobravam muitos recursos, o total de crédito imobiliário regulado
pelo governo cresceu 12 vezes. Os depósitos na poupança, 3,4 vezes.
Os empresários do crédito, da venda e da construção de casas avisam pelo
menos desde 2011 que a fonte iria secar, que era preciso incrementar as
normas financeiras para o setor, de modo a permitir a criação de novos
modos de captar dinheiro para o financiamento. Na verdade, era preciso
repensar o sistema inteiro de financiamento habitacional, de poupanças
obrigatórias (FGTS) e a caderneta de poupança, parte dele velho de meio
século, inventado para uma economia primitiva, que nem mercado
financeiro ou Banco Central de fato tinha.
A situação do financiamento bancada pela poupança começou a parecer
crítica lá por 2011. Mas Dilma 1, no seu estilo deixa que eu chuto
preocupado com miudezas e avesso a reformas, não ligou muito.
É preciso reconhecer que o sistema foi vítima de seu sucesso neste
século: a queda dos juros e reformas de Lula 1 incentivaram o
crescimento do crédito imobiliário, inédito no Brasil. Mas o esquema deu
o que tinha que dar, mesmo que os depósitos na poupança voltem a
crescer, o que é duvidoso.
A crise provoca os saques na poupança, mas não apenas. Há alternativas
mais rentáveis de aplicação financeira. As pessoas, enfim, parecem
aprender um pouco de finanças pessoais (a caderneta mal acompanha a
inflação, não rende nada em termos reais).
O governo, por ora, limita-se a dizer que os bancos podem captar
dinheiro por outros meios, o que já vêm fazendo. Mas esse dinheiro custa
mais caro, o que encarece o financiamento imobiliário. Além do mais, o
mercado brasileiro de títulos imobiliários ainda é meio primitivo e raso
feito um pires.
Há no governo quem sugira algum remendo, como aumentar o crédito via FGTS.
Mas o FGTS não tem os fundos e mundos que muita gente no governo quer
utilizar (habitação, infraestrutura, BNDES, cura de espinhela caída,
coração partido etc.). Os mais "liberais" sugerem que o mercado recorra
mais a LCIs, que ora fazem algum sucesso por ser uma aplicação isenta de
Imposto de Renda para pessoas físicas –mas o ministro da Fazenda quer
cobrar IR aí.
Em suma, o financiamento imobiliário vai ficar mais caro e escasso. O
problema é controlar os estragos de curto prazo, os efeitos secundários
da crise da construção, que já está bem feia.
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