por Alexandre Schwartsman Folha de São Paulo
Estava o Cordeiro a tocar o Ministério da Fazenda quando apareceu o
Porco, de horrendo aspecto, e perguntou: "Que desaforo é esse de reduzir
meu PIB?".
Ao que o Cordeiro respondeu: "Mas, seu Porco, como é que eu poderia ter
reduzido o seu PIB se só cheguei aqui no começo do ano e a economia vem
em recessão desde o meio do ano passado?".
"Ah", disse o Porco, "mas você cortou o gasto público, o que fez o PIB cair ainda mais."
"Olha", retrucou o Cordeiro, "desde que estou aqui o consumo do governo
aumentou. Só um pouquinho, sabe, mas foi o único componente da demanda
doméstica que subiu em 2015."
"Esse negócio de argumentar com números não me convence", voltou o
Porco, "porque, em primeiro lugar, só interessa aos esbirros do
conservadorismo, na cúspide de uma sociedade submissa ao rentismo,
prisioneira da defesa da riqueza estéril, e, em segundo lugar, porque eu
não conheço as quatro operações e não entendo o que você está falando.
Fora isso, o investimento também está desabando, e o multiplicador
keynesiano diz que isso vai fazer a renda cair ainda mais."
"É verdade", confirmou o Cordeiro, "mas o investimento despenca desde o
segundo trimestre de 2013, ao menos, quando ainda o que valia era a tal
Nova Matriz Macroeconômica, que, segundo eu soube, veio da cabeça de
Porcos que nem o senhor."
"Aliás", continuou, "pelo que me disseram, os Porcos sumiram quando
ficou claro que o investimento seguia em queda e que a recessão viria
para valer. Só ficou por aqui um jumentinho italiano, otimista 'pra'
burro (sem trocadilho, sabe?), que me passou as chaves da casa."
"Não quero saber!", vociferou o Porco. "Quando o jumentinho te deu as
chaves, a inflação era menor que 6,5%, mas agora já varou os 10%."
"Também verdade", admitiu o Cordeiro. "Acontece que, ao chegar aqui,
encontrei uma porcaria (sem querer ofender, sabe?): tinha um monte de
preço congelado, saindo caro para o Tesouro, mais caro ainda para a
Petrobras. Só me restou ajustar tudo de uma tacada."
"Aliás, foi difícil achar um Porco que assumisse a responsabilidade pelo
congelamento dos preços. Até o final do ano passado vários deles
estavam ainda comemorando que a inflação não tinha estourado o teto da
meta, e havia até uma Leitoa afirmando que era tudo 'terrorismo
econômico'."
"Mas vocês clamam pelo aumento do desemprego!", grunhiu o Porco, "a Pnad diz que já alcançou 9%. Sua culpa, Cordeiro!"
"Aí, seu Porco", respondeu o Cordeiro, "é que lhe faz falta saber ler os
números. A Pnad diz que o desemprego também vem crescendo desde o meio
do ano passado, e o Caged revela que a perda de empregos formais também
ocorre desde aquela época."
"Você, Cordeiro, quer pôr a culpa num governo popular, cujo único erro
foi ter adotado o programa adversário, que jogou o país na depressão",
guinchou o Porco, já fora de si com a atitude do Cordeiro.
"Olha, seu Porco, seus colegas de vara deixaram as coisas aqui em
pandarecos. Dívida crescendo, inflação em alta (mesmo com preços
congelados), desemprego idem, economia em recessão, um buraco sem
precedentes nas nossas contas externas. Tanto estrago que nem Dona Anta
aguentou vocês e teve de chamar um Cordeiro para arrumar a bagunça."
E, já que Porco não come Cordeiro, deu-lhe as costas e o deixou chafurdando na lama.
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