A escolha do nome "Catilinárias" para designar o cumprimento de mandados
de busca e apreensão nas casas de Eduardo Cunha e de outros figurões do
PMDB é um daqueles achados felizes.
Como a cultura clássica andou perdendo prestígio nos últimos séculos,
convém colocar o contexto. "Catilinárias" são os quatro discursos que o
filósofo, orador e político romano Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.)
proferiu contra o senador Lúcio Sérgio Catilina (108-62 a.C.),
denunciando-o por conspirar contra a República –o que era verdade.
Especialmente a primeira catilinária é uma obra-prima da retórica. Todos
aqueles que tiveram o prazer de estudar um pouco de latim hão de se
recordar de passagens como "Quo usque tandem abutere, Catilina,
patientia nostra?" (até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência)
ou o ainda mais célebre "O tempora, o mores!" (ó tempos, ó costumes).
O que torna a escolha do nome particularmente feliz é o fato de páginas e
páginas das acusações lançadas por Cícero contra Catilina se ajustarem
como uma luva a Cunha. Em comum, ambos têm o populismo, a ganância e,
principalmente, a cara de pau. Até as pedras sabiam o que eles tramavam,
mas isso não os perturbava.
Cunha se mantinha no comando da Câmara e Catilina, mesmo tendo ordenado
uma frustrada tentativa de assassinar Cícero na véspera, foi
pessoalmente ouvir o libelo do orador, ao qual respondeu. Daí que várias
frases do discurso conservam um delicioso duplo sentido histórico, como
"Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a
tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem?".
Espero, porém, que o paralelismo acabe por aqui. Como Cícero não
dispunha de provas irrefutáveis contra Catilina e os conspiradores,
tratou de forjar um flagrante e condenou cinco carbonários à morte sem
julgamento. Não foi uma atitude muito republicana deste campeão da
República.
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por Hélio Schwartsman Folha de São Paulo




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