O Estado de São Paulo Fernão Lara Mesquita:
A era das manifestações sem povo e contra o povo vai chegando melancolicamente ao fim.
Só em Brasília, onde o “marajalato” ameaçado
de desmame não tem contra quem impor-se à força, foram dispensadas as
barricadas que, no resto do País, ilustraram com perfeição a nossa “luta de classes” pré-Queda do Muro: “contribuídos” x contribuintes, aposentados integrais x aposentados pela metade, barrantes x barrados, “sindicalistas” x trabalhadores. Foi uma desolação a tal “greve geral”. O dinheiro do imposto sindical ainda compra sindicalistas, mas, definitivamente, não compra mais a massa dos compulsoriamente “sindicalizados”.
É uma situação única na História essa nossa. A “jabuticaba” das “jabuticabas”. Um lado ainda tenta, mas já não cola. O outro lado só não cola porque não tenta.
Até o Congresso Nacional, que abriga os mais sensíveis narizes da raça
às mais leves oscilações do vento, registrou oficialmente “a virada” nas
votações da noite de 27/4. Falta ainda a confirmação por três votações
do Senado e da Câmara neste país em que nem o passado é estável, é
verdade, mas a “virada moral”, a rendição argumentativa, já foi votada e assinada. É um golpe de morte na essência da “privilegiatura” a queda do foro especial para 35 mil dos “pares da corte” pouco mais de um ano depois de ter sido o nosso “rei” oficialmente declarado submetido “a deus”, significando a prevalência dos fatos sobre as suas olímpicas “narrativas”, e “à lei” pela
Operação Lava Jato e pelo STF. Isso e mais uma reforma trabalhista que
avançou muito além do cosmético de sempre e, ainda, o “desdentamento” da Lei de Abuso de Autoridade literalmente imposto pela opinião pública à “cafajestocracia” que
começa a ingressar no território do passado, definitivamente não são
pouca coisa para um país indigente de comemorações como este andava.
A alegoria reacionária encenada no plenário pelos beneficiários diretos do “peleguismo” e do “trabalhismo” achacador
afastados das tetas quase centenárias não deixou dúvida quanto à
certeza deles próprios de estarem sendo empurrados para fora da História
do Brasil. Foi a primeira brecha no dique do “amestramento” pelo Estado das instâncias básicas de representação da sociedade, que, começando com o “imposto sindical” de Getúlio Vargas, “petrificou-se” com o Fundo Partidário da Constituição de 88 e chegou ao paroxismo com o “financiamento público” de Organizações Não Governamentais Organizadas pelo Governo do “lulismo”, que fechou o País à “democracia representativa”, fez explodir a corrupção e pôs o trabalho em via de extinção em todo o território nacional.
Não existe força no mundo que possa constranger uma Câmara dos
Deputados, um Senado da República e um Supremo Tribunal Federal com o
retrospecto e o “pedigree” dos
nossos a fazerem o que o povo realmente não quisesse que eles fizessem
só porque assim lhes tivesse determinado um governo provisório
desprovido de qualquer sombra de charme e sem a chancela das urnas, como
nos querem fazer crer alguns dos mais notórios falsários do “horário gratuito”. Por mais que soneguem à massa as informações que realmente importam, o repúdio ao “marajalato” está posto. Só falta quem, no governo ou fora dele, nos três ou no quarto Poder, se disponha a “puxar a fila” indicando
ao Brasil um caminho prático que lhe permita dar o chacoalhão que o
País está louco para dar na árvore da qual pende essa fruta podre. O
inimigo já reconhece na pessoa de Temer, aliás, a mão que quer
arrancá-lo da teta. É a única glória do presidente interino e ele já
está pagando o preço de tê-la. Mas o outro lado das barricadas não o
enxerga como o instrumento da “virada”, muito mais que por seu passado, por este presente no qual ele hesita em se lhe oferecer como tal.
A “falha de comunicação” do governo está em dirigir-se à “2.ª classe”,
que não recusa, ainda que não aplauda, as reformas que sabe
necessárias, para repetir-lhe o que ela já está doloridíssima de saber:
que se elas não forem feitas o futuro é o presente: viramos todos um
imenso Rio de Janeiro. Como também não é absolutamente o caso de “explicar” à “privilegiatura” como
ela está matando o Brasil – porque ela sabe exatamente o peso que tem
neste desastre, conforme fica diariamente demonstrado pelo fato de seus
próceres não perderem tempo argumentando suas “razões”,
tratam somente de criar miragens para desviar a atenção dos fatos –, o
que o governo tem de fazer é expor à minúcia o que eles tentam esconder,
qual seja, a relação direta de causa e efeito entre esses privilégios e
a miséria que custa sustentá-los.
Se exibir exaustivamente o gráfico e os personagens arquetípicos da “distribuição da renda” no universo da Previdência comparando a 1.ª com a 2.ª classe e, dentro da 1.ª classe, os “barnabés” com os “marajás”, o “sistema” já
cai de podre. Mas se, junto com isso, mostrar, com os respectivos
custos, os jatinhos e os carros de luxo ao lado dos trens de subúrbio;
as mordomias ao lado dos barracos; as escolas na Inglaterra pagas aos
filhos dos “marajás” pelos pais das escolas das balas perdidas; os “auxílios” mil isentos com o imposto sem correção sobre os salários quase mínimos; os planos de saúde eternos ao lado dos “hospitais” do horror; se expuser tudo isso ao lado das falcatruas em série do tipo “bolsa pesca” em
Brasília; os milhões de Benefícios de Progressão Continuada pagos a
gente na flor da idade dispensada de exame médico; os 9 milhões de
aposentadorias do setor rural quando só há 6 milhões de pessoas em idade
de se aposentar no campo, segundo o censo nacional; se o “dream team” mostrar,
enfim, na ponta do lápis, que diferença tudo isso faria descontado do
sacrifício extra que está pedindo aos aposentados de R$ 1.600, aí, sim,
a “pelegada” toda
ia ficar sabendo o que é uma MANIFESTAÇÃO DE MASSA e não demorava nem
cinco minutos para que uma verdadeira reforma do Brasil, com a da
Previdência dentro, fosse aprovada por unanimidade no Congresso
Nacional.
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