editorial do Estadão
Para os petistas, o Brasil vive hoje em pleno estado de exceção. Não há
dúvida, segundo a versão petista dos fatos, de que Dilma Rousseff foi
vítima de um “golpe” que a tirou da Presidência da República. Também não
há dúvida, para essa turma, de que o grande líder petista, Lula da
Silva, é um perseguido político e corre o risco de ser condenado à
prisão pelo “crime” de ter governado “para os pobres”. Não faltam nem os
que consideram o governo do presidente Michel Temer uma “ditadura”.
Enquanto isso, esses mesmos petistas são capazes de defender a ditadura –
sem aspas – de Nicolás Maduro na Venezuela. A embaixada venezuelana no
Brasil divulgou recentemente uma série de vídeos em seu canal no YouTube
nos quais três deputados do PT manifestam apoio a Maduro no momento em
que este reprime violentamente manifestações de oposição ao regime
bolivariano – mais de 20 pessoas já foram mortas.
Um dos deputados é Paulo Pimenta (RS), que, em sua página no Facebook,
já se referiu ao governo Temer como “ditadura”. No vídeo, o parlamentar
diz: “Estamos juntos com o povo da Venezuela. A luta pela sua soberania,
pelo direito de escolher e construir o seu futuro... Resistam contra o
avanço da direita fascista! Vamos às ruas em defesa do projeto da
revolução bolivariana! Contem conosco, estamos juntos nessa luta”.
Outro que aparece para prestar “a mais alta solidariedade ao povo da
Venezuela e ao governo popular da Venezuela de Maduro” é o deputado
petista João Daniel (SE). Segundo ele, “há um terrorismo na América
Latina, financiado pelo imperialismo, para derrubar os governos
populares”. Foi o que aconteceu também no Brasil, de acordo com o
parlamentar. Por esse motivo, acrescentou, “a luta em defesa do governo
da Venezuela pertence a todo o povo latino-americano”.
Por fim, o líder do PT na Câmara, deputado Carlos Zarattini – que no dia
do impeachment de Dilma Rousseff, há um ano, pediu a mobilização dos
brasileiros contra a tentativa de “implantar uma ditadura civil” no País
–, gravou mensagem em que diz que o “governo popular” de Maduro é
vítima de “uma estratégia de desestabilização”. Segundo Zarattini, o
desabastecimento, a inflação e a profunda crise social que afetam a
Venezuela, causando até mesmo fome, são provocados pelas “forças
reacionárias”, cujo objetivo seria “instalar o caos para que, a partir
disso, o povo clame por uma solução de força”. Por esse motivo, disse o
deputado, “o povo venezuelano está certo em lutar fortemente para
defender o que é seu e o seu governo”.
Nem se deve perder tempo tentando argumentar contra tão rematados
despautérios, inspirados no despudor de Lula da Silva, que um dia
declarou que a Venezuela chavista tem “excesso de democracia”. Mas é
particularmente grave que detentores de mandato parlamentar no Brasil,
que se dizem defensores da democracia, venham a público manifestar
solidariedade ao governo de um país vizinho que está claramente violando
os mais básicos direitos dos cidadãos.
Depois de ter arruinado economicamente a Venezuela, Nicolás Maduro hoje
nada faz a não ser estimular um confronto civil no seu país. Não
contente em reprimir protestos e prender centenas de opositores,
anunciou que pretende armar milhares de milicianos para “defender a
soberania nacional” contra o “imperialismo” – que, como sempre, está por
trás de tudo. Aproxima-se rapidamente de um ponto do qual dificilmente
se retorna sem um banho de sangue, razão pela qual qualquer apoio a
Maduro, hoje, é irresponsável.
Nos tempos da diplomacia lulopetista, ditadores como Maduro eram
tratados como queridos companheiros, pela simples razão de que se
opunham aos Estados Unidos. Essa atitude típica de grêmio estudantil
felizmente foi abandonada no Brasil e na Argentina, deixando Maduro mais
isolado do que nunca, salvo apenas pelo apoio dos que, como os
solidários deputados petistas, consideram que democracia e direitos
humanos são conceitos válidos somente para quem é da patota.
extraídaderota2014blogspot





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