por Vinicius Torres Freire Folha de São Paulo
Não é bem silêncio. Talvez seja discrição oportunista de certas elites,
combinada ao fastio entorpecido, raiva cansada, da maioria dos comuns.
Apesar dos ruídos políticos previsíveis, a detonação do impeachment
parece ter explodido em um vácuo social. Não fez barulho.
O vazio é o da política maior, o abismo entre a política politiqueira
dos partidos podres e a vida real. Há pouca conversa entre os dois
mundos; há muito conchavo.
Há militâncias explícitas, contra e a favor de Dilma Rousseff, é
evidente. No entanto, ressalte-se, nas elites do poder e do dinheiro há
receio de embarcar em alguma das canoas, até nas preferidas.
"Organizações da sociedade civil" (as velhas) fazem manifestos
desenxabidos. Não há líder político na rua. Lula está meio quieto.
Movimentos sociais pró-Dilma não querem dar apoio incondicional, pedem
um "sinal de esquerda" da presidente.
A oposição ainda não tem os votos para abrir de fato o processo de
impeachment, o que seria quase uma condenação de Dilma. O governo ora
não tem o poder de estancar a sangria que a oposição quer fazer durar
até o Carnaval. Os PMDBs não mediram suas forças, pró e contra Dilma.
Nestes dias, o Planalto tenta até comprar apoio no varejo dos cargos.
Michel Temer articula, como fazia antes mesmo de Eduardo Cunha espirrar
no país ainda mais da lama na qual se debate. O vice, porém, parecia
tatear devido à indefinição no seu partido e do mundo do dinheiro, o que
viu em pessoa no final de semana paulistano. Mas, ontem de noite,
tornou pública sua irritação com Dilma, com o que se afastou mais um
passo do Planalto, estimulando peemedebistas a escolherem um lado.
Há gente graúda do comitê banqueiro-empresarial de "apoio a Dilma" ainda
na dúvida sobre o que fazer, embora estejam todos fartos da presidente;
todos preferem apenas uma inviável renúncia, para já, para ontem.
Há evidências mais anedóticas de desconcerto, de gente que não só quer
decapitar Dilma Rousseff mas qualquer hipótese de governo de esquerda
pelas próximas décadas.
Algumas dessas pessoas, da finança, comentam acabrunhadas os editoriais
da "grande mídia" estrangeira, que faz muxoxos de desprezo para o nosso
bananismo institucional. Para estupefação de quem espinafrava as de fato
pavorosas situações de Argentina e Venezuela, é até possível que tais
países ainda consigam fazer uma troca de guarda política mais organizada
do que a nossa.
A oposição acredita que o tempo será o senhor da deposição de Dilma
Rousseff. Na volta do recesso de festas e torpor de janeiro, o acúmulo
de sofrimento e raiva criaria ambiente propício à explosão. Pode ser.
"Zikas", como se diz na gíria e, agora, no hospital, não faltam, embora
não tenda a ocorrer nenhum repique dramático da crise, apenas degradação
contínua, talvez algo mais rápida no desemprego.
Quem vai acender os pavios? A elite política quase inteira continua a
olhar para seus umbigos sujos; não se escuta nenhum discurso que indique
o que será do futuro. Os padrões da militância "das ruas" estão
alterados, os militantes antigos estão deteriorados e parte da
militância nova (de direita) ainda não tem "know-how" da coisa.
Tudo parece ainda mal parado.
extraídaderota2014blogspot





0 comments:
Postar um comentário