por Arnaldo Jabor O Globo
Tudo já foi escrito sobre essa crise óbvia e vagabunda que ronda o
Brasil. Já se sabe de tudo, tudo está dito, analisado e é o único tema
da hora. Não aguento mais esse assunto cheio de medo, de dúvidas, de
adivinhações e profecias vãs. Por isso falo hoje sobre coisas ínfimas,
mas fundamente vivas na minha memória. Vamos lá.
Há algum tempo passava de carro em frente ao morro da Mangueira quando
de repente vi que estava na rua da minha primeira infância. Ali, no
Rocha, na antiga Rua Guimarães e hoje Rua Almirante Ari Parreiras.
Estava diante de minha casa, onde vivi até os oito anos.
Estava na frente de minha infância. Não ia lá há mais de 40 anos. A casa
do meus pais estava ali, geminada à casa de meus avós. Meu Deus... como
a casa era pequenina.
Uma varandinha de azulejos verdes, umas janelinhas toscas, um quintal ao
fundo. Parei no carro e apontei os faróis para ver melhor. Um sujeito
apareceu na janela e eu fui embora. Ao lado, a mesma casinha tosca onde
moravam meus avós. Quando criança tudo me parecia imenso, misterioso,
maravilhoso e eu estava ali diante de duas casinhas de classe media de
subúrbio. Assim, desmaiaram um pouco meus triunfos imaginários como
índio com penas de galinha, de pulador de carniça e de cowboy dos filmes
do cine Palácio Vitória, no fim da rua. No jardinzinho da entrada ainda
restavam plantas que minha avó cultivava no passado. Ainda estavam ali
as marias vagabundas, as begônias e a dama-da-noite que exalava um
perfume mágico de suas estrelinhas brancas sob o céu estrelado do
subúrbio. E aí, me perguntei: “Eu já escrevi sobre meu pai, minha mãe,
meu avô — por que não sobre minha avozinha?”.
Acho que foi porque ela teve um papel secundário como as senhoras
daquela época. Ela era quase ausente, quase imperceptível em minhas
memórias. Cuidava da casa com esmero, sua colcha indiana dourada e
vermelha, sua jarra de Murano, seu quadro de Gastão Formenti (ela dizia:
“canta e pinta bem”).
Seu universo sempre foi estreito. Na classe média carioca dos anos 1950,
cercados de preconceitos, medos e ciúmes nas casas sombrias, os casais
estavam programados para tristezas indecifráveis. Eu via as famílias;
sempre havia uma ponta de silêncio, olhos sem luz, depois dos casamentos
esperançosos com buquês arrojados para o futuro que ia morrendo aos
poucos. Mas havia também naquele tempo uma poética do atraso — na Lapa,
no Mangue, havia um Rio que, com poucas migalhas, fabricava uma
urbanidade pobre, bela.
Viveram até os anos 1960 no subúrbio ainda baldio; depois, o apartamento
micha de Copacabana, onde vi minha avó entristecendo pouco a pouco,
tentando manter um sonho de família, tentando manter a cortina de
veludo, a poltrona coberta de plástico para não gastar, os quadros de
rosas.
Minha avó tinha os cabelos azuis. E essa tintura contra a velhice era
seu maior orgulho quando ia de tailleur à missa. Sua história era
brevíssima, contada aos pedaços: cartões-postais que ela colecionava
(com o crescimento dos correios internacionais) — lembro de um que me
enchia de precoce nostalgia: “Feliz 1908!”. Contou-me um sonho
recorrente que tinha com anjos azuis descendo a rua, lembro de sua
máquina de costura Singer, sua cultura em francês subestimada por meu
avô ignorante e até de uma breve interferência na literatura nacional de
que se orgulhava, pois na fazenda Santo Antônio onde trabalhara
despejou muitos baldes das hemoptises de Manuel Bandeira, que esteve lá
curando a tuberculose. “Coitado do Manuel Bandeira... toda hora cuspia
sangue...”
Parecia que só tinha acontecido meia dúzia de fatos em sua vida, além de
ter gerado minha mãe e minha tia e (descobri num caderno velho de meu
avô) uma filhinha que morreu com um ano, chamada Alice, da gripe
espanhola — fato sempre ocultado. Hoje, falamos demais; antigamente,
ninguém dizia nada — desquite era pecado, até tuberculose era mal
mencionada como a “pertinaz moléstia”...
Minha avó teve um sofrimento calado durante mais de vinte anos: meu avô
tinha uma amante, colega de escritório, uma ruiva grandona que conheci,
também desesperada porque meu avô nunca a assumira e que me beijava com
trêmula ternura como se eu fosse seu neto postiço.
Minha avó ignorava telefonemas suspeitos, frases soltas, horas tardias
de chegada, esperas infinitas e fingia não entender quando minha mãe e
tia falavam “por alto” sobre a d. Celeste (seu nome) à sua frente. Todos
sabiam e ninguém falou.
Sua única confidente era Hermínia, a empregadinha. Essa era quase um
fiapo, quase nada, pretinha, magrinha e viera da roça como todas as
empregadas da época. Achávamos que “roça” era um lugar de onde vinham as
pessoas pobres, outro país, com batatas e mandiocas, pastos de bois e
empregadas que se agregavam a famílias urbanas. Nessa época já tinham se
mudado para Copacabana, ali no Posto 6.
Um dia... Hermínia, que queria ajudar vovó, levou-a a um centro espírita
“linha branca”, onde uma médium com voz grossa de caboclo lhe disse que
havia uma “mulher atrapalhando sua vida — ela é grande e tem o cabelo
vermelho, muito vermelho!”.
Vovó voltou para casa mais triste ainda e falou para as filhas que o pai
delas ia abandoná-la por uma mulher de cabelo vermelho... Mamãe dizia:
“Bobagem, não liga para essas macumbas não...”.
Mas, a partir dessa época, minha avó parou de pintar o cabelo de azul e
vivia calada pelos cantos com suas farripas brancas manchadas e
despenteadas. Se trancava muito. Um dia, cheguei do colégio e ouvi pela
porta fechada de seu quarto um choro lento, soluçante. Que houve, vovó?
Está passando mal?
Nada, meu filho, estou resfriada. Tem um copo de leite pra você na geladeira.
Ficava sempre numa cadeirinha de balanço quietinha e ali foi encontrada depois de seu último suspiro. Não incomodou ninguém.
Depois que ela se foi, meu avô ficava o dia todo sentado na mesma
cadeirinha olhando o mar, por uma nesga entre dois edifícios. De vez em
quando passava um navio.
extraidaderota2014blogspot





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