por Ruy Castro Folha de São Paulo
Uma frase na coluna de quarta-feira, em que atribuo à presidente Dilma Rousseff um "estilo patafísico de falar e governar" (O dilmês em seu apogeu,
"Opinião", 9/12), intrigou alguns leitores. "O que é patafísico? A
palavra não consta do Aurélio e do Houaiss", escreveram. Fui conferir e,
de fato. Mas está na Wikipedia, com seu significado oficial instituído
pelo Collège de Pataphysique, órgão fundado em 1948, em Paris, e
dedicado ao seu estudo por luminares como Ionesco, Jacques Prévert,
Raymond Queneau, Boris Vian, Henri Jeanson e Siné.
A patafísica é a ciência das soluções imaginárias. Segundo seus
teóricos, opera a desconstrução do real e a sua reconstrução no absurdo.
Foi criada pelo dramaturgo e escritor francês Alfred Jarry (1873-1907) e
apareceu num romance póstumo, "Os Gestos e Opiniões do Dr. Faustroll,
Patafísico", de 1911. Jarry é mais famoso pelo rei Ubu, personagem
cultuado há muito no Brasil por Cacá Rosset e o Teatro do Ornitorrinco.
Há uma explicação para a patafísica ser tão pouco conhecida por aqui. É
porque seu conceito é mesmo vago e não parecia ter aplicação na nossa
vida prática. Mas, de alguns anos para cá, passou a ter. Quem entre nós
são os grandes praticantes das soluções imaginárias? E quem tem mais se
dedicado a desconstruir o real e reconstruí-lo no absurdo?
Há mais de um ano, durante a campanha eleitoral, muitos já diziam que
gostariam de viver no Brasil do PT –um país à prova de crises, em que as
contas estavam nos trinques, os empregos se multiplicavam, a energia
sobrava, o superavit primário era um colosso, gastava-se sem produzir e,
em breve, cada casebre teria uma TV de LED de 50 polegadas e um carro
na porta.
Um projeto digno do Ubu: desconstruir o Brasil real e reconstruí-lo no absurdo. Os patafísicos Dilma e Lula conseguiram.
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