editorial da Folha de São Paulo
Há meses se afirma que, no Brasil de hoje, já não se pode distinguir a
fronteira que separa a crise econômica da política. É certo, no entanto,
que as duas dimensões dessa onda de turbulências se alimentam de forma
mútua, num círculo vicioso interminável e penoso para toda a sociedade.
Uma das possíveis consequências desse quadro caótico e paralisante foi
anunciada dias atrás pela Moody's, empresa norte-americana de
classificação de risco.
A agência colocou a nota brasileira em revisão para rebaixamento. Com
isso, num prazo de três meses, o país pode perder o selo de bom pagador
–nesse caso, diversos investidores deixariam de trazer seu dinheiro para
cá.
Na avaliação da Moody's, não há sinais de que o sistema político será
capaz de gerar um consenso para começar a ajustar as contas públicas em
2016.
Análise semelhante fez a congênere Standard & Poor's, que em
setembro classificou o Brasil como destino arriscado para os recursos.
Sem um ajuste que estabilize a dívida pública, o cenário mais provável
será a redução ainda maior da confiança de empresários e consumidores,
reforçando a tendência recessiva. A recessão, por sua vez, faz contrair
ainda mais a arrecadação de impostos –o que resulta em escalada do
endividamento.
Alguns economistas alinhados ao governo e à própria presidente Dilma
Rousseff (PT) costumam dizer que a dívida pública, em torno de 67% do
PIB atualmente (e em trajetória de crescimento acelerado), ainda é baixa
nas comparações internacionais. Os Estados Unidos e vários países
europeus têm débitos de 90% a 130% do PIB.
Trata-se de comparação equivocada. A fatia do patrimônio das famílias e
das empresas que está comprometida com o financiamento do governo no
Brasil é muito maior do que nos EUA, por exemplo. Assim, qualquer
deterioração das contas públicas tem impacto mais forte aqui –uma das
razões para os juros escorchantes no país.
Diante do óbvio, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, houve por bem
reconhecer que o alerta da Moody´s "reflete a realidade". A isso ele
ainda acrescentou: "Se você não se organiza, não tem união, o resultado é
sério".
Organização, de fato, é item escasso no Planalto. Chegado quase o fim do
ano, ainda não se tem nenhuma ideia de qual será a meta de superavit do
Orçamento para 2016. Levy continua a defender 0,7% do PIB, mas outros
membros da equipe (se é que cabe o termo) e a ala política do governo
querem maior espaço para gastos.
Tampouco há clareza sobre um conjunto mínimo de medidas estruturais,
como uma reforma na Previdência, que poderia reforçar a confiança e
comprar tempo para um ajuste mais lento nas contas. Mas não há, no
governo da presidente Dilma Rousseff (PT), nada que se assemelhe a um
plano.
extraídaderota2014blogspot





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