por Reinaldo Azevedo Folha de São Paulo
Só dois terços tiram Dilma Rousseff da Presidência, e é preciso apenas
um terço para que ela fique. Com dois terços, constrói-se um núcleo de
governabilidade no Congresso. Com um terço, constrói-se apenas a
agudização da crise.
Por mais alienada que Dilma esteja da realidade, é claro que ela sabe
que a aventura acabou. Um governo que consegue 199 votos, de 513
possíveis, numa disputa que serve de esquenta para o impeachment
pretende conquistar com quais instrumentos os 308 necessários para
aprovar, por exemplo, a CPMF –o imposto que já conta como receita em
2016, ano que, já se sabe, será igualmente horrível?
Não! Esse não é um argumento jurídico. É só aritmética aplicada à política. É só pragmatismo.
No terreno legal, que o crime de responsabilidade tenha sido cometido,
aí fala a evidência do texto no cotejo com a realidade. Por mais que se
possa admitir um espaço para a interpretação, isto que segue, por
exemplo, é muito claro: é crime de responsabilidade "ordenar ou
autorizar a abertura de crédito em desacordo com os limites
estabelecidos pelo Senado Federal, sem fundamento na lei orçamentária ou
na de crédito adicional ou com inobservância de prescrição legal".
Cito apenas uma das agressões à Lei 1.079 (a íntegra da denúncia contra Dilma está neste endereço.
Observem: faço, como toda gente, minhas escolhas políticas,
ideológicas, valorativas. Mas pretendo manter em campos distintos a
ordem dos fatos e as operações puramente mentais.
Incapazes de negar as evidências dos crimes cometidos pela presidente;
acuados pelo sentido objetivo das palavras; emparedados pelas evidências
mais elementares, restou aos defensores da permanência de Dilma brandir
mais uma vez a teoria do "golpe das elites contra um governo popular".
Jamais imaginei, a partir dos 25 anos ao menos, que um dia ainda
escreveria isto: saudade do tempo em que as esquerdas eram marxistas, o
que as obrigava a agregar a seus juízos de valor um raciocínio
econômico. Mesmo quando se dedicavam às tertúlias sobre a
superestrutura, a cultura, a ideologia, forçoso era que o pensamento
encontrasse o seu molde na economia.
Hoje não. Uma das razões que levam petistas para o banco dos réus são
suas relações perniciosas com as forças que aquelas esquerdas de então
chamariam de "burguesas". Qualquer esquerdista medianamente honesto com
as suas próprias convicções estaria obrigado a confessar que a história
do petismo é a história de uma rendição muito bem remunerada do trabalho
alheio.
Ora, mas por que eu, então, que abomino essa gente estou descontente?
Essa é fácil de responder! Porque não sou nem chantagista nem lacaio de
ricos. Tenho o destemor de defender aquilo que causa horror mesmo a
parte considerável do empresariado brasileiro: um modelo liberal.
Quando se acusa aqui e ali um suposto golpe das elites contra Dilma,
cabe perguntar: por que elas o fariam? Nunca se viram governos tão
generosos com os muito ricos como os do PT.
Sou um legalista e um formalista. Presentes as razões que constam da
denúncia, eu estaria a defender o impeachment de Dilma mesmo que ela
fosse um sucesso de crítica e de público.
Contamos com esta única facilidade: ela não é! Que os pecados da
presidente possam nos redimir. Em nome da lei. Em nome do pragmatismo.
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