HÉLIO SCHWARTSMAN FOLHA DE SP
O Brasil parece estar
finalmente acordando para o fato de que as despesas obrigatórias do
Estado não podem (pelo menos não indefinidamente) crescer num ritmo
superior ao do aumento do PIB. Se tomarmos as medidas necessárias para
estancar a sangria, setores estratégicos como educação e saúde passarão
por alguns anos de vacas ainda mais magras do que as habituais. Caberá
aos administradores do sistema encontrar maneiras de aumentar a eficácia
dos gastos para reduzir, na medida do possível, os prejuízos ao
cidadão.
Nesse contexto, merece especial atenção a chamada
judicialização da saúde. Uma interpretação exótica do artigo 196 da
Carta, que afirma que "a saúde é direito de todos e dever do Estado",
tem feito com que um grande número de juízes conceda liminares que
obrigam o SUS a bancar toda espécie de tratamento, mesmo que custem os
olhos da cara e não tenham comprovação científica.
O resultado se
mede em bilhões de reais. A mais recente estimativa do Ministério da
Saúde fala em R$ 7 bilhões ao ano. Juízes precisam ter em mente que os
orçamentos são finitos. Se determinam que um único paciente receberá um
quinhão grande da verba, estão tirando recursos que poderiam beneficiar
outros doentes. Nossa tendência é sempre valorizar casos que têm nome e
história, em detrimento de estatísticas sem rosto, mas esse é um viés
humano incompatível com a lógica da administração pública, para a qual o
sujeito que pede uma liminar não deveria ter nenhum tipo de preferência
sobre os milhares que não vão à Justiça.
Como ocorre em qualquer
sistema de saúde pública pautado pela racionalidade, o SUS só deveria
pagar tratamentos definidos previamente pelo administrador, segundo um
cálculo que leve em conta custos e benefícios. A lista, é claro, precisa
acompanhar os desenvolvimentos da medicina. Seguir essa cartilha às
vezes é cruel, mas não vejo outra saída.
extraídadeavarandablogspot




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