RUY CASTRO FOLHA DE SP -
Um motivo
pelo qual nunca me atrevi a cozinhar foi por me julgar incapaz de
desempenhar uma das funções da especialidade: fatiar certos
ingredientes. Se a culinária se resumisse a pratos com presunto,
salaminho, pastrami, mortadela ou queijo-bola, seria fácil — bastaria
pedir ao rapaz do açougue que tirasse 250 gramas de cada um na máquina
de cortar frios. Mas ninguém será um cozinheiro de verdade se não
dominar a fina arte de fatiar.
Vide o carpaccio. Como extrair de
uma posta de filé ou lagarto aquelas lâminas diáfanas, quase
transparentes? O truque é deixar a carne durante horas no congelador
antes de seccioná-la. Já com os sashimis, o fatiamento é mais difícil,
porque se dá com o peixe ao natural — o esmero estará na mão de quem
corta e na precisão da faca, equivalente à das espadas dos samurais.
Falando nisso, São Paulo perdeu há pouco o samurai dos sashimis: o
inesquecível Tanji, que, em 50 anos de Liberdade, fatiou um oceano de
salmões e atuns.
Fatiar uma pizza já não tem tanto mistério. Para
dividi-la em oito pedaços, aplica-se uma carretilha em cruz à cobertura
e à massa; depois, uma nova cruz em diagonal; e pronto — é só levantar
as fatias com um garfo e servi-las. Mas, na única vez em que me
aventurei a isto, devo ter aplicado muita força à carretilha, porque
cortei também o fundo da caixa em que viera a pizza, com papel-manteiga e
tudo.
Já cortar um bolo, torta ou pudim em fatias também exige
"savoir faire", para que ele não se desfaça, despenque ou transborde da
espátula até o prato. E, com isso, eu julgava ter esgotado o assunto.
Mas,
agora, há um novo produto a ser fatiado. É a Constituição brasileira.
Depois que Renan, Lewandowski e outros inauguraram esta prática, não há
porque não continuar dividindo-a em fatias, a gosto do cliente.
extraídadeavarandablogspot




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